REALIDADE
BIBLIOGRAFIA
01- A CRISE DA MORTE, pag. 81 02 - ANÁLISE DAS COISAS, pag.35
03 - AUTODESCOBRIMENTO UMA BUSCA INTERIOR, pg.68 04 - CIÊNCIA E ESPIRITISMO, pag. 73
05 - CONVITES DA VIDA, pag. 147 06 - MÃOS UNIDAS, pag. 51
07 - MORADIAS DE LUZ, pag. 69 08 - PÉROLAS DO ALÉM203

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REALIDADE – COMPILAÇÃO

01 - REALIDADE

A proposição da ciência Espírita é descortinar a realidade do espírito imortal
postado em 12/03/2013 21:17 por Edmar Barros [ 12/03/2013 21:21 atualizado?(s)? ]

Autor Jorge Hessen

A Ciência, propriamente dita, é uma conquista recente; não ultrapassa a três séculos, embora seus primeiros ensaios tenham começado na Grécia dos áureos séculos VI, V, IV a.C. Temo-la representada por Arquimedes, em cujaspesquisas deram base para a mecânica, por Pitágoras de Samos, por Tales de Mileto, por Euclides de Alexandria, no desenvolvimento da matemática e da estruturação numérica.

Um milênio após essas apoteóticas realizações gregas, ocorreu, na Europa, a desagregação do Império romano, no século V, e a liderança cristã surgiu como elo de agregação dos “bárbaros invasores” e se transformou em Igreja soberana absoluta dos destinos “espirituais” no Ocidente.

No século XIII, Tomás de Aquino se destacou, propondo a síntese do cristianismo vigente com a visão aristotélica do mundo. Em suas duas Summae, sistematizou o conhecimento teológico e filosófico de então. No século XIV, a Igreja romana, sob os guantes tomasistas, entronizou uma teologia (fundada na revelação) e uma filosofia (baseada no exercício da razão humana) que se fundiram numa síntese definitiva: fé e razão, unidas em sua orientação comum rumo ao Criador. A tese de Aquino afirmava que não podia haver contradição entre fé e razão e estabeleceu o pensamento filosófico-teológico manifesto na truculenta filosofia do “Roma locuta causa finita”.

A partir dos séculos XV e XVI, o homem passa a ser o principal personagem (antropocentrismo). Os pensadores criticaram e questionaram a autoridade dessa autoritária Igreja romana. Nessa conjuntura a apropriação do conhecimento partia da realidade observada pela experimentação, pela constatação, e, por fim, pela teoria, decorrendo uma ligação entre ciência e técnica. No século XVII, a primeira grande teoria de que se tem notícia na moderna ciência versou sobre a gravitação universal elaborada por Newton, desmembrada das leis dos movimentos planetários de Kepler e na Lei de Galileu sobre a queda dos corpos.

No século XIX Marx Plank propôs a teoria do Quantum. No século XX, Albert Einstein resignificou a teoria da relatividade e outros pressupostos das teses newtonianas sobre a gravitação universal, chegando a conclusões inusitadas na abordagem sobre as realidades do micro ou do macrocosmo, sobretudo no que reporta a tempo e espaço na dimensão material. Até então, a física tradicional era considerada a chave das respostas da vida no mundo palpável, estribada no determinismo mecanicista. Todavia, na década de 1920, as pesquisas de Brooglie, no universo da física quântica, redirecionaram o pensamento científico na formulação heisenberguiana do “princípio da indeterminação ou da incerteza” e com ele irrompeu-se um “irracionalismo” na ciência redimensionando a distância do homem das realidades naturais da vida.

Em meio a essas trajetórias históricas, surge, no cenário terrestre, no século XIX, a personalidade luminosa de Allan Kardec, que, inspirado pelos Benfeitores do Além, sentenciou: Fé verdadeira é a que enfrenta frente a frente a razão em qualquer época da humanidade , esclarecendo os enigmas que desafiavam as inteligências daqueles mesmos que confiavam nos determinismos tecnicistas do nec plus ultra acadêmico.

A proposição da Ciência Espírita é descortinar a realidade do Espírito imortal, fundamentada em realces científicos acerca dos fenômenos mediúnicos coletados na metodologia doutrinária. A proficuidade desse saber está na razão direta do seu bom emprego por parte daqueles que dele tomam ciência. Desse modo, é preciso que nos apropriemos de tal forma do saber contidos nas obras básicas da Doutrina dos Espíritos que, por via de consequência, nos façamos senhores de nós mesmos, ou seja, emancipados intelectualmente da cegueira espiritual do materialismo, tanto quanto das superstições.

O mestre de Lyon ainda afirmou em outras palavras que o Espiritismo independe de qualquer crença científica ou religiosa e não propõe que fora do Espiritismo não haja salvação; tanto quanto não pretende explicar toda verdade, razão pela qual não propôs – “fora da verdade não há salvação”. Os preceitos kardecianos consubstanciam-se no manancial mais expressivo das verdades eternas. A missão da Doutrina Espírita perpassa o processo de reerguimento do edifício desmoronado da crença cristã.

Jorge Hessen

02 - REALIDADE

O Existencialismo Hominal à Luz da Filosofia Espírita
Escreve: Humberto Mariotti
Em: Março de 2012

1. SOBRE O “SER E O NÃO SER”

“To be or not to be” é o dilema filosófico e religioso apresentado por Hamlet ao refletir contemplando uma caveira, pois nele se resume todo o drama existencial do homem. Se o individuo humano é um ser destinado a dissolver-se no nada, os valores morais e a significação dos processos espirituais e sociais não têm nenhuma razão lógica para serem considerados como fatores positivos da Humanidade, uma vez que unicamente o que se destacaria nele seria um existir transitório, colocado entre dois enigmas insolúveis: o berço e a sepultura.

Entretanto, o Ser está destinado a ter império sobre a existência; sua natureza de essência imaterial não está destinada a diluir-se na noite do nada já que possui uma transcendentalidade que o aproxima do imortal para fazê-lo penetrar definitivamente no eterno.

O Ser é porque não há um existir para o nada. Se o Ser é um ato espiritual, seu destino consiste em fazer-se consciente de sua invulnerabilidade frente à morte. Se o Ser nasce é porque já existia no seio da vida como uma essência condicionada pela existência espiritual. Não haveria Ser se seu existir estivesse destinado a ruir como um castelo de baralho na obscuridade do irracional e do nada. Mas o “ser ou não ser” de Hamlet, profunda problemática para a filosofia de todos os tempos, foi resolvido pelo gênio mediúnico da doutrina espírita. O Ser foi confirmado como Espírito imortal e, por conseguinte, como entidade que não foi superada pela morte, razão pela qual se revelou como entidade viva e comunicante.

Toda filosofia niilista para ser rebaixada no que respeita ao nada, sobre o qual se assenta, necessita de uma demonstração existencial mediúnica que lhe faça ver a vida vencendo a morte. Pois que o Ser é, existe e está destinado a vencer as limitações da morte para revelar-se ante a inteligência como uma Existência Viva, cuja característica moral e psicológica não se verá alterada no mínimo que seja pelo ato de morrer que o aguarda. Recordemos que ato de morrer se transforma com a filosofia espírita em ato de ser, o que quer dizer que esse ato resulta em uma transfiguração do homem até mostrar-nos a verdadeira imagem do indivíduo. A morte à luz do Espiritismo se transforma na desencarnação e o ato de nascer em encarnação e reencarnação.

O Ser, em sua realidade existencial encarna e desencarna, o que significa que o nascer e o morrer da antiga visão filosófica e religiosa é superada pela realidade do Ser imortal que, através da encarnação e desencarnação, passa através da história para dar cumprimento à noção espírita que nos diz: “Nascer, morrer e renascer, tai é a lei”. De maneira, pois, que o “ser e o não ser” de Hamlet, — se bem que, por certo, segue espicaçando um grande setor da antropologia moderna — foi amplamente elucidado, não apenas pela razão filosófica, mas também por “atos existenciais” que se revelam por intermédio do fenômeno mediúnico.

O dilema de “ser ou não ser” foi transfigurado por essa brecha aberta pelos espíritas, brecha que nos mostra a verdadeira natureza do Espírito e da Vida. A reflexão filosófica deverá penetrar nesses novos estágios do conhecimento e reconhecer que todo ato existencial e todo intento cultural de conhecer o homem e o mundo, só se tornará um fato quando se reconheça positivamente que o Ser é uma realidade existencial sem perigo de ser aniquilado, nem pela morte nem pelo nada eternos.

2. SOBRE O “CRER OU NÃO CRER”

Allan Kardec, no capítulo “O Futuro e o Nada” de seu livro “A Gênese”, revela-se-nos como Hamlet, um notável filósofo existencial quando diz: “Ser ou não ser: tal é a alternativa”, o que nos apresenta esta outra dramática interrogação: “crer ou não crer”? Com efeito, se o homem não crê em algo transcendental, não crerá tão pouco em seu próprio ser e existir, já que o Ser e Crer são dois fatos que se interpenetram reciprocamente.

Se o Ser não é uma realidade espiritual, o ato de crer resulta impossível, pois só poderá crer quem está seguro de seu Ser como entidade existencial imortal. Então, crê-se na própria existência e na existência dos outros. O Ser se reconhece como realidade espiritual e, não obstante as diversas finalidades de sua angústia, na finalidade de sua dor, transcende toda ideia da morte e do nada.

O Ser se afirma como entidade lógica ante as realidades contrárias porque se sente Vida e Ser, reconhece que seu drama existencial está ligado ao mistério do tempo, através do qual se desenrola sua essência, eterna e palingenésica. William James falou da “necessidade de crer”. Em realidade, o ato de crer é o que dá ao homem personalidade moral e fé no destino que lhe compete viver como Ser existencial.

Se o homem crê, estará a salvo do niilismo e de toda morte espiritual. Crer é, pois, possuir o dom da fé porque somente nessa condição se poderá olhar a existência como Ser e Transcender, e reconhecer-se-á que o Crer conflui no ser e existir eternos. Se a “fé verdadeira pode olhar a razão face a face em todas as idades da Humanidade”, essa fé é a que deverá se enraizar no Ser para sua “salvação” frente ao nada. E a fé aparece quando o Espírito se reconhece a si mesmo como uma realidade indestrutível, por cuja razão pode chegar a crer com toda intensidade na finalidade inteligente da Existência e do Universo.

Ser e Crer são duas realidades existenciais que a filosofia universitária não alcança confirmar firmemente sobre fatos experimentais. Apenas a filosofia espírita pode dar consistência real ao Ser e ao Crer, ao relacionar a inteligência encarnada com a desencarnada.

Crer na Vida, no Espírito e em Deus, através do saber espírita, é viver um crer comunicante com a verdade. Surge na alma do Homem uma fé inamovível, a qual dar-lhe-á serenidade e segurança, ao reconhecer-se como Ser inamovível, a qual lhe dará serenidade e segurança ao reconhecer-se como ser encarnado. O drama existencial será para ele como uma consequência da lei moral que determina sua condição palingenésica. Vem daí que o Crer se converterá em Fé e toda contradição existencial experimentada pelo Ser se converterá em vivência criadora.

A fé e o crer espíritas representam dois atos espirituais que colocam o Ser em planos mais sutis e reais para o entendimento filosófico e religioso. Conhecem-se os propósitos divinos por uma ressonância interna da verdade no Ser encarnado, fato este que o capacitará para reconhecer-se como Espírito Imortal e como entidade que encarna e desencarna. Deus é uma realidade para o Ser espiritualizado pelas luzes das revelações mediúnicas. Sua existência se torna assim uma “realidade de amor” que trata de relacionar-se com o Espírito encarnado para beneficiá-lo com sua divina presença. E é assim que o Crer e a Fé não são dogmas ou pressuposições teológicas, mas se manifestam no Ser como realidades que dão significação à vida existencial e encarnada do indivíduo.

3. SOBRE O “AMAR OU NÃO AMAR”

No estado de fé o Ser penetra na verdade e passa através do ato existencial do crer, compreendendo que existimos para viver e para amar. Quando a fé e o crer se unem pelo sentido de Espírito imortal, o Ser chega ao ato de amar sem nenhum esforço. Então, nele se reúnem o Ser, o Crer e o Amar em uma única substância e o homem encarnado descobre que leva em si “graus de Cristo”, isto é, níveis de amor alcançados por seu próprio progresso espiritual. A noção do mundo invisível como uma presença espiritual se instala em sua consciência e o Ser alcança saber que todo existir como Espírito coadjuva sua própria existência, isto é, sua correspondente reencarnação. Mas, o que dá maior esplendor e objetividade a esta noção do mundo invisível é a comunicação que ele pode estabelecer com o visível. Esta realidade leva o Espírito encarnado a compreender que o imortal é eterno, como destino de todo ser existente, é propriedade da vida como fenômeno divino que é. O mundo invisível é a zona dos espíritos desencarnados que esperam corporizar-se no invisível por meio da reencarnação. Disso resulta que a existência é causa da preexistência e as contingências existenciais são situações palingenésicas determinadas pela própria evolução do Ser.

O existencial tem sua causa no essencial, razão pela qual pode-se afirmar, à luz da filosofia espírita, a primazia da Essência sobre a Existência e não o contrário, como sustenta o existencialismo de Sartre. O Ser, ao compreender que existe para a vida e que a morte e o nada não fracionara mortalmente sua realidade existencial, é capaz de amar. Chega a sentir em sua essência a fé e o Crer como base de seu existir e, por conseguinte, vive o ato de amar entre entregando-se ao mundo invisível superior com alegria e regozijo espiritual. O ato de amar se converte em vivência permanente de seu ato de ser e, em tal situação de iluminação, aumenta sua capacidade de crer. Deste modo o Espirito existe para Ser, para Crer e para Amar, o que constitui a mais bela síntese da existência encarnada. O Espiritismo, por ser ciência do Espírito, é o mais potente e real existencialismo do Ser e de Deus. Não há nele lugar para “uma existência que morre”; no Espiritismo só há Existência “que vive no divino e no eterno”. A raiz da existencialidade que nos revela é de vida imortal; por isso o Espiritismo é um existencialismo para vivos e não um existencialismo para mortos.

No Espiritismo não cabem nem a Morte nem o Nada; por conseguinte, é o verdadeiro Existencialismo, cuja base se acha no reexistencialismo, isto é, nas existências sucessivas que o ser atravessa para preencher os campos intelectuais e espirituais de sua consciência.

Todo saber existencial, que resulte impotente ante a morte, anula o ato de amar. Só se ama quando se sabe positiva e mediunicamente que o Ser é imortal e que no invisível se encontra a raiz que sustenta e dá forma ao visível. O amor é a consequência de um saber verdadeiro sobre o Espírito, pois que todo amor ferido pela morte se transforma em dor e desesperação. Para que o amor se manifeste no Ser plenamente, é necessário saber que a morte não é uma realidade e que o Ser vive no divino repetidas representações existenciais (reencarnações) que o aproximam continuamente da Verdade, da Beleza e do Amor.

Os filósofos modernos que buscam sobrepor-se à ideia da morte e do nada deverão recorrer ao Espiritismo, pois só nele está a ciência filosófica e religiosa que supera a morte. Pois quando a cultura dos povos modernos se basear sobre a realidade existencial do Espiritismo, já não haverá senão Espíritos avançados conscientemente para Deus, sabendo que se morre para viver e que todo existir verdadeiro conflui em um ato de amor.

4. SOBRE A FÉ ESPÍRITA

Se a fé é ver com os olhos do Espírito as coisas invisíveis, somente a fé espírita é a verdadeira, pois que é um saber de clarividência. A fé é um plano do ser que lhe permite penetrar na verdade pela sabedoria que nos dão os espíritos desencarnados. Isto porque toda fé sem conexão com a realidade do mundo invisível não é fé viva e criadora, mas sim, uma fé estática e sem vida espiritual.

A fé espírita é feita de ciência e filosofia, isto é, brota na alma pela experiência e a reflexão. Não é um postulado de ciências que responde às necessidades de um dogma. A fé espírita brota da própria alma do homem, pois que é a consequência das relações que mantém com o mundo dos espíritos. Quando a fé não é verdadeira, declina e muda com o correr do tempo; chega o momento em que se esgota totalmente no espírito por motivo de sua própria irrealidade. Daí a decadência espiritual das culturas, das nações e a aparição do ateísmo e do cepticismo.

A crise dos tempos modernos deve-se à falta de fé, apesar do que digam contra os partidários do racionalismo. A razão é a faculdade para medir e julgar as dimensões do mundo visível, mas a realidade não é puramente objetiva se necessita da fé que desenvolve a intuição convertendo-se assim em um instrumento que nos permite penetrar no mundo invisível.

A fé e a razão constituem o homem encarnado. Aí, fé é a essência desenvolvida que o Ser traz de suas vidas anteriores, enquanto que a razão é formada pela experiência sensorial que o Espírito realiza em seu estado de encarnação. Vale dizer que a fé é essência que pertence ao Espírito, e a razão o que se desenvolve com a inteligência, como saber experimental adquirido através do processo palingenésico.

A fé espírita é o extrato essencial deixado pela evolução do espírito. O mais alto do saber é a fé, cujo instrumento, na vida encarnada do Ser é a intuição, que é limitada ou extensa conforme for a acumulação da fé efetuada pelo Espírito.

A filosofia espírita, que reconhece o Ser como uma entidade que encarna e desencarna sem solução de continuidade, mantém que a inteligência sem a fé resulta limitada pela estreiteza sensorial em que se encontra o Ser que, como se sabe, é apenas um modo de apreender o conhecimento. A fé adquirida por uma expansão palingenésica da consciência, em contraposição, resulta para nós em um saber adquirido pela iluminação espiritual do objeto conhecido. A fé é capaz de ultrapassar o universo da forma, enquanto que a inteligência permanece aderida ao puramente formal. A fé é também inteligência, mas é um saber baseado na essência das coisas; poderíamos dizer que a fé é um saber inspirado que se faz magnifico em um saber mediúnico, o qual transfigura-o, fazendo-nos ver que todo conhecimento autêntico provêm do mundo dos espíritos.

A fé espírita é um saber do mundo espiritual; sua essência está formada por uma evolução da consciência e por uma constante comunicação da alma com o invisível. Dai resulta que todo o verdadeiro saber necessita crer em Deus e na verdade do Ser como espírito encarnado. Só assim se completará esse tipo de homem, capaz de sobrepor-se à morte e ao nada. Deste modo é que se reconhecerá que toda existência tem sucessivas e múltiplas existências, pelas quais o Ser se desenvolve amplamente até ressoar com a realidade invisível do Universo.

Um saber sem fé não completará nunca o Ser do homem encarnado, pois que, enquanto a fé não ponha em movimento a intuição, o homem permanecerá na epiderme do conhecimento e não se reconhecerá a si mesmo como uma entidade espiritual permanente e imortal. O pensamento à luz do Espiritismo é um fenômeno intelectual que se conquista pelo ato da encarnação vivido pelo Ser. Mas o pensamento logo se elabora, intimamente, até alcançar um refinamento tal que se transforma em essência do Ser e do Saber. Não esqueçamos de que o Ser é uma manifestação do Espírito sobre a base de seu processo palingenésico que o transfigura cada vez mais, até elevá-lo ao plano dos Espíritos puros.

As verdadeiras faculdades mediúnicas (repare-se que são faculdades) são o resultado de uma grande acumulação no ser de fé e de saber que permitem ao espírito encarnado comunicar-se com o mundo invisível. A isto Kardec chama mediunidade facultada, pois que está unida à evolução do Ser e é uma consequência dessa mesma evolução. De modo que a fé espírita é um estado superior de evolução que, à luz do Espiritismo, se pode anunciar como uma realidade.

Antes do advento da filosofia espírita a fé era uma coisa imposta ou sugerida à força de dogmas e crenças e se desmoronava ante a análise da razão. Por sua vez, a fé espírita quer dizer a iluminação da alma por diversas vivências espirituais do Ser e surge como uma consequência de profundas convicções acerca da existência do Ser e do mundo dos Espíritos. Este fato fez Kardec dizer que “a fé inabalável é aquela que pode olhar a razão em todas as idades da humanidade”.

Com este pensamento, o mestre espírita quis expressar que a cultura viverá diversas idades resumidas na científica, na filosófica e na religiosa; a fé espirita não será confundida porque o saber espiritual se converterá em sabedoria divina, para conhecer cada vez mais e melhor o Espírito e o Universo.

Fonte: RIE - Revista Internacional de Espiritismo, Matão-SP.


Humberto Mariotti (1905-1982), poeta, escritor, jornalista, conferencista e intelectual espírita argentino. Presidiu a Confederação Espírita Argentina em 1935/1937 e 1963/1967. Esteve, junto com Manuel S. Porteiro, no Congresso Espírita Internacional de Barcelona (1934). Foi também vice-presidente da Confederação Espírita Pan-Americana (CEPA) em duas gestões. Escreveu, dentre outras obras: Dialéctica y Metapsíquica; Parapsicologia y Materialismo Histórico; El Alma de los Animales a Luz de la Filosofia Espírita;