MÔNADA
BIBLIOGRAFIA
01- A agonia das religiões - pág. 58, 110 02 - A crise da morte - pág. 122
03 - Atualidade de Allan Kardec - pág. 40 04 - Da alma humana - pág. 87
05 - O Espiritismo - pág. 81 06 - Universo e vida - pág. 45
07 - Vampirismo - pág. 100, cap. xi 08 - Perispírito e Corpo Mental -pág. 114

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MÔNADA – COMPILAÇÃO

01- A agonia das religiões - José Herculano Pires - pág. 58, 110

CAPÍTULO VII - DO PRINCÍPIO INTELIGENTE
Tratei até agora da relação djreta do pensamento de Deus com a matéria. Essa relação é necessária, da mesma maneira que é necessária a relação direta do pintor com o quadro que ele executa, e portanto do trabalho que ele realiza no quadro, orientado pelo seu pensamento.

Na verdade, o seu pensamento se projeta no quadro e ali se materializa, passa do plano do inteligível para o plano do sensível. Ao completar sua obra, cessa a relação direta ou ativa, mas permanece a relação passiva ou indireta. Assim, a relação direta caracteriza o ato de pintar, ou de criar. Pode-se alegar a existência de intermediários: as mãos, a palheta é o pincel, a tinta. Mas convém lembrar que todos esses instrumentos fazem parte da obra em execução, sobre a qual o pensamento do pintor ama diretamente.

Na ação de Deus sobre a matéria o processo é o mesmo. O pensamento divino aglutina a matéria, dando-lhe estrutura, através da qual temos a passagem do pensamento do plano do inteligível para o plano do sensível. Uso a divisão de Platão neste sentido: o inteligível é o intelecto divino e o sensível é o plano do sensório, das sensações humanas. Dessa maneira, Deus materializa o seu pensamento para atingir a sensibilidade do campo material em que o homem vai ser criado. No fiat ou ato inicial da criação temos ação direta e ativa do pensamento divino estruturando a matéria.

Uma vez formada essa estrutura, surge um elemento novo que é designado pela expressão princípio inteligente. O pensamento divino ligado à matéria adquire autonomia, sem com isso desligar-se da fonte que o alimenta. Transforma-se na mônada, elemento básico e estrutural da matéria, de que são compostas as próprias partículas atômicas. A palavra mônada procede de Pitágoras, foi empregada por Platão como idéia e desenvolvida modernamente por Leibniz e Renouvier como uma substância inteiramente simples pura indivisível e refratária a qualquer influência exterior. A mônada é dotada de uma força interior que a transforma, de potencialidades que se desenvolvem continuamente e de capacidade de percepção e vontade. As mônadas são diferentes entre si no tocante a essas potências internas.

Estas correlações filosóficas são necessárias para entender-se o que é o princípio inteligente da concepção espírita. Trata-se, como se vê, do princípio básico de toda a realidade, responsável pela formação dos reinos da Natureza, pelo desenvolvimento da vida e de todas as faculdades vitais e anímicas dos seres. O admirável poder de intuição dos gregos captou não só a existência dos átomos, como também a das mônadas, que a Ciência atual já está conseguindo atingir nas profundezas da misteriosa estrutura da matéria, na pesquisa sobre as partículas atômicas. A teoria espírita do princípio inteligente é explicada de maneira sintética no "O Livro dos Espíritos". No item_23 dessa obra temos o seguinte: Que é o espírito? É o princípio inteligente do Universo. Seguem-se outras explicações nas quais a inteligência se define como um atributo essencial do espírito. Geralmente confundimos a substância (espírito) com a inteligência, que é seu atributo.

Colocado assim o problema, parece-me explicada a razão pela qual os Espíritos Superiores não esmiuçaram essa questão fundamental. Na própria tradição filosófica, desde bem antes da era cristã, já dispúnhamos dos elementos necessários de intuições capazes de nos fornecerem os dados para uma equação futura. Faltava-nos, porém, o desenvolvimento, que só mais tarde poderia ocorrer, das pesquisas científicas em profundidade. Atualmente já podemos compreender com mais clareza a dinâmica do processo criador.

A teoria filosófica da mônada, que antes poderia ser considerada como simples hipótese inverificável, adquire hoje a condição de uma teoria científica ao alcance da comprovação pela pesquisa. Teorias como a do físico inglês Dirac, por exemplo, segundo a qual o Universo está mergulhado num oceano de elétrons livres, ou a dos físicos soviéticos, de que esse oceano parece ser de uma luz violácea proveniente dos primórdios da criação, mostram-nos as possibilidades novas que as pesquisas espaciais estão abrindo nesse campo. O mesmo se pode dizer da teoria dos campos de força que preenchem todo o espaço sideral.

É evidente que, diante dessas novas posições conceptuais, toda a nossa cultura entra em crise, prenunciando o advento de um novo mundo. A inteligência humana se abre para dimensões mais amplas e profundas da realidade universal, exigindo a reformulação de conceitos e estruturas culturais envelhecidas.

Não podemos mais pensar em Deus como uma figura humana, nem do ponto de vista formal, nem do substancial. Só podemos considerá-lo como o Ser Absoluto, como a Inteligência Suprema, mas assim mesmo sem lhe atribuir nenhuma das limitações humanas. Os teólogos do Cristianismo Ateu, da Teologia Radical da Morte de Deus, sentem isso na própria pele, mas faltam-lhes os dados para uma equação mais positiva do problema. Divagam através de suposições ameaçadoras e caem irremediavelmente num torvelinho de contradições. Se tivessem a humildade de consultar a Filosofia Espírita, essa pedra rejeitada da parábola evangélica, encontrariam nela a pedra angular do novo edifício a construir.

O Espírito a que a Bíblia se refere em numerosos tópicos e que nos Evangelhos toma o nome de Espírito Santo é o Espírito de Deus em sua manifestação universal. A Criação tem dois aspectos, o material e o espiritual. O sopro de Deus é o espírito criado no fiat e o homem de barro, o Adão terreno, o ápice da criação nos mundos em desenvolvimento, como a Terra. O sopro de Deus nas ventas do homem de barro, para infundir-lhe o princípio da vida e da inteligência, é a ligação do espírito com a matéria na formação da mônada.

No pensamento divino todo o quadro da criação estava presente desde o princípio. E tudo era perfeito. A perfeição do ideal constituía o modelo da realidade (o mundo da rés, das coisas) que devia projetar-se no Infinito. Por isso, as mônadas diferenciadas, com características específicas, seriam semeadas no espaço para a germinação lenta, mas segura e contínua, dos conteúdos essenciais de cada uma delas. A mônada é a semente do ser, da criatura humana e divina que dela surgirá nas dimensões da temporalidade.

Não se pode conceber, em nossa relatividade humana, mais grandiosa e perfeita concepção do ato criador. Podemos perguntar porque Deus, que é o supremo poder, precisa do tempo para realizar essa obra gigantesca. Mas o Espiritismo ensina que a nossa relatividade decorre de necessidades nossas e não de Deus. O que para nós são séculos e milênios, para Deus pode ser apenas aquele instante que, para Kierkegaard, era o encontro do tempo com a eternidade.

Um instante de profundidade e extensão imensas, que resume para o homem todas as suas existências nas duas dimensões do Universo que hoje nos são acessíveis: a espiritual e a material. É, sem dúvida, espantoso pensar, como Gustave Geley, que tudo quanto consideramos inconsciente, desde o grão de areia aos mundos que giram em torno dos sóis, possui a potencialidade da consciência em desenvolvimento no seu interior. Mas quando compreendemos que a mônada, síntese de espírito e matéria» é uma unidade infinitesimal, sobre a qual se apoia toda a realidade — o que corresponde à concepção atômica da Ciência em nossos dias — nossa mente começa a abrir-se para um entendimento superior.

Se o poder do átomo nos espanta, a potencialidade da mônada nos aturdiria. E ambos esses poderes nada mais são do que fragmentos do poder de Deus. Quando pensamos nisso, a teoria do princípio inteligente começa a revelar-nos a grandeza da doutrina espírita. E no entanto os seus fundamentos estão nos princípios evangélicos, sobre os quais milhares de teólogos, filósofos, místicos e pregadores escreveram e falaram sem cessar, numa catadupa de páginas e palavrórios ao longo de dois mil anos!

Essa opacidade c a inteligência humana, esse embotamento da capacidade de compreensão poderia fazer-nos descrer das potencialidades do princípio inteligente se não soubéssemos que o instinto gregário do homem o leva a imitação e à repetição dos papagaios. Quando Kardec se atreveu, utilizando-se de todos os recursos de sensatez e equilíbrio, apoiando-se na cultura do Século XIK — para não provocar reações precipitadas que lhe prejudicariam a obra. (...)

(..) Apesar disso, há criaturas que acusam o Espiritismo de doutrina simplória, de simples abecê da Espiritualidade, curso primário de iniciação nos conhecimentos superiores da realidade universal. Enganam-se com a linguagem simples das obras de Kardec, através da qual o mestre francês colocou ao alcance de todos, graças a um processo didático, dificílimo de se atingir e aplicar, os mais graves problemas que os sábios do futuro teriam de enfrentar, como estão enfrentando neste momento.

A simplicidade de Kardec é tão enganosa como a de Descartes. À maneira do Discurso do Método, "O Livro dos Espíritos"è um desafio permanente à argúcia e ao bom-senso dos sábios do mundo. Esses dois livros nos lembram a simplicidade enganosa dos ensinos de Jesus, que os teólogos enredaram em proposições confusas, não compreendendo o seu sentido profundo e impedindo os simples de compreendê-lo.

Mas voltemos às duas linhas paralelas da filogênese humana, para tratar da segunda. Na primeira tivemos o processo natural de desenvolvimento das potencialidades do princípio inteligente, que podemos comparar ao crescimento da criança e aos primeiros cuidados com a sua educação. Temos de aguardar o desenvolvimento orgânico da criança para que as suas possibilidades mentais se revelem. E temos então de orientar as suas disposições naturais para o aprendizado escolar.

O que vimos na primeira paralela foi exatamente esse processo. Quando as potências da mônada atingiram o desenvolvimento necessário à sua individualização definitiva, como criatura humana, e a consciência mostrou-se estruturada, começou então o processo da sua maturação e do seu aprendizado. O clã, a tribo, a horda, a família e as formas sucessivas de civilização representam as etapas da segunda linha paralela, em que se verifica o desenvolvimento cultural. A inteligência, já formada, vai ser cultivada ao longo do tempo, nas gerações sucessivas.

As diferenciações monádicas intuídas por Leibniz, como as diferenciações na constituição atômica verificadas pela Física atual, respondem pelas características diversas e diversificadoras das criaturas humanas em substância e forma. Essas diferenciações não são apenas individuais, mas também grupais, determinando por afinidade os grupos familiais e raciais. Os elementos da natureza, do meio físico, e as miscigenações, as misturas raciais e culturais, contribuirão para acentuar as diversificações no decorrer do tempo.

Nota-se a existência de um dispositivo protetor das raças e culturas em desenvolvimento, nas primeiras fases do processo, com o isolamento dos grupos afins nos continentes. Mas esse dispositivo não é artificial, entrosa-se naturalmente no processo evolutivo, em que todas as condições necessárias decorrem das variantes evolutivas. São inerentes ao processo.

Quando os vários grupos amadureceram suficientemente e conquistaram um grau relativamente elevado de civilização, inicia-se a fase das conquistas, da dominação dos grupos mais poderosos sobre os mais fracos, numa longa e penosa elaboração de novas condições de vida e cultura. Kerschensteiner coloca o problema da cultura subjetiva e da cultura objetiva, a primeira correspondendo ao plano das idéias, da elaboração intelectual, a segunda ao plano da prática, do fazer, das realizações materiais.

E Ernst Cassirer mostra como a cultura objetiva conserva em suas obras materiais, gravadas nos objetos, as conquistas subjetivas de uma civilização morta. A Renascença, por exemplo, revela como as conquistas espirituais do mundo clássico greco-romano foram arrancadas das ruínas e dos arquivos aparentemente perdidos e reelaboradas pelo mundo moderno. Dewey, por sua vez, acentua a importância da reelaboração da experiência nas gerações sucessivas.

Mas quando chegamos ao ponto em que hoje estamos, prontos para um salto cultural de natureza qualitativa, ainda não podemos considerar-nos como obra concluída. Como observou Oliver Lodge, o homem ainda não está acabado, mas em fase talvez de acabamento. Sim, talvez, porque o nosso otimismo e a nossa vaidade podem enganar-nos a respeito do nosso estágio atual de realização. A própria situação da Terra, isolada no espaço e só agora tentando a expansão cósmica, deve advertir-nos de que ainda não estamos preparados para ingressar na comunidade dos mundos superiores. (..)

02 - A crise da morte - Ernesto Bozzano - pág. 122

(..) Passo a comentar sumariamente o caso que venho de reproduzir. Chamo, antes de tudo, a atenção para o fato de que a personalidade autora da mensagem se deu pressa em prevenir os experimentadores de que "nenhum peregrino do mundo dos vivos chega pela mesma porta ao mundo espiritual", isto é, que cada Espírito, sendo uma entidade individualizada e, por conseguinte, mais ou menos diferente de todas as outras entidades da mesma natureza, tem forçosamente que deparar no Além com uma situação também mais ou menos diferente da dos outros Espíritos individualizados, no momento de entrar no meio espiritual, meio de natureza exclusivamente mental.

Essas diferenças, que não podem deixar de ser enormes entre "eleitos" e "réprobos", existem mesmo entre os Espíritos que, pela lei de afinidade, gravitam no mesmo meio, embora se trate de diferenças relativas a detalhes secundários, ou à direção de certas experiências inerentes à crise da morte. No caso que nos preocupa, pareceria que as diferenças se referem unicamente à duração de determinadas experiências por que todos os Espíritos têm de passar.

Nota-se, em primeiro lugar, que a crise do trespasse foi mais fácil para Miss Scatcherd do que o é para a maioria dos Espíritos. Contudo, ela também refere ter experimentado a sensação passageira da flutuação no espaço. Diz igualmente não haver, a princípio, acreditado que morrera, mas que se curara de súbito, embora essa impressão também tenha sido pouco duradoura. Viu igualmente seu cadáver no leito de morte; também teve o seu período de sono, ainda que muito curto; teve a "visão panorâmica" dos acontecimentos de sua vida, se bem que sob a forma de uma multidão de lembranças gratas que lhe invadiam a mentalidade.

Os entes caros, que ela perdera, se lhe apresentaram em seguida, entre outros, sua mãe. Observou os filamentos luminosos que ainda a prendiam ao corpo e conseguiu dissipá-los, concentrando-se em absoluta calma de espírito. Percebeu a nuvenzinha fluídica que havia de lhe constituir o "corpo espiritual" e, graças à potencialidade do seu pensamento, seguindo o conselho de seus guias, chegou a modelar o próprio semblante, dando-lhe traços juvenis. Presa do vivo desejo de tornar a ver uma de suas amigas, achou-se incontinenti perto dela.

Do mesmo modo que todos os outros Espíritos que se comunicam, foi, afinal, impressionada, sobretudo, pelo grande fato do poder criador do pensamento, no meio espiritual. Deteve-se mesmo, mais demoradamente do que a maior parte dos outros Espíritos, a descrever maravilhas desse poder. Sua descrição é importante e instrutiva, porque contribui para que melhor se compreendam certas modalidades do fenómeno, que pareciam obscuras e embaraçosas à nossa inteligência limitada.

Aludo aos esclarecimentos dados pela entidade, acerca da sábia colaboração por meio da qual os "Espíritos" operam, para criar o meio geral comum, evitando assim a confusão caótica das iniciativas pessoais. Resta-nos tomar em consideração a revelação última da entidade transmissora da mensagem: a que diz respeito às supremas esferas espirituais, donde os Espíritos muito elevados que as habitam enviariam os "germes da vida" aos mundos do Universo, empregando o poder criador do pensamento. — Que se deve pensar disto?

Responderei que, se atentar­mos na impotência inata da cienciazinha humana, que jamais conseguirá penetrar o grande mistério das origens da vida dos mundos; se considerarmos que a mentalidade humana permanecerá eternamente na impossibilidade de saber como é que uma mônada inerte de protoplasma se vitalizou repentinamente, tornando-se uma "ameba", ou transformando-se num "líquen" — teremos que convir em que se pode tomar em consideração a fecunda sugestão da entidade de quem procede a comunicação. Segundo ela, haveria entidades espirituais muito elevadas que, pelo seu pensamento criador, engendrariam "fluxos vitais".

Estes, atingindo os mundos e saturando-lhes o protoplasma primitivo, lhe transmitem os germes da vida vegetativa que, graças a um processus evolutivo muito lento, a se realizar no meio físico, através dos quatro reinos da Natureza, acaba por engendrar a sensibilidade, depois a motricidade, em seguida o instinto animal, os primeiros albores da inteligência e por fim, a inteligência consciente de si mesma. É assim que se chegaria à criação de uma individualidade pensante... Paremos aí.

Nada impede se haja de aceitar esta solução do grande enigma, tanto mais que, tudo bem considerado, fora desta explicação, nunca se chegará a formular qualquer coisa de racional sobre o problema das origens. Contrariamente, aceita que seja esta solução, se bem ela não nos ponha em condições de penetrar o Incognoscível, levar-nos-á, entretanto, a uma compreensão do mistério, bastante, ao que nos parece, a satisfazer e repousar o espírito.

Com efeito, este começo de solução se fundaria num fato conquistado pela Ciência, isto é, que o pensamento humano já dispõe da potencialidade de objetivar formas que ficam gravadas na chapa fotográfica e se materializam e, muitas vezes, se organizam. O primeiro e maior obstáculo racional que se encontra, para aceitar a solução de que se trata, estaria então vencido. Para aceitá-la, bastaria deduzir dali que a potencialidade criadora do pensamento, tal qual se manifesta em a natureza humana, é de natureza evolutiva no meio espiritual e perfectível além de todo alcance do entendimento humano. É claro que, se se admite a sobrevivência, este postulado não só é legítimo, mas também racionalmente necessário. (..)

06 - Universo e vida -Àureo - pág. 45

(..) Fez a pressão atmosférica adequada ao homem, antecipando-se ao seu nascimento no mundo, no curso dos milênios; estabeleceu os grandes centros de força da ionosfera e da estratosfera, onde se harmonizam os fenômenos elétricos da existência planetária, e edificou as usinas de ozone, a 40 e 60 quilômetros de altitude, para que filtrassem convenientemente os raios solares, manipulando-lhes a composição precisa à manutenção da vida organizada no orbe. Definiu todas as linhas de progresso da humanidade futura, engen­drando a harmonia de todas as forças físicas que presidem ao ciclo das atividades planetárias. A ciência do mundo não lhe viu as mãos augustas e sábias na intimidade das energias que vitalizam o organismo do globo.

Substituíram-lhe a providência com a palavra "natureza", em todos os seus estudos e análises da existência, mas o seu amor foi o Verbo da criação do princípio, como é e será a coroa gloriosa dos seres terrestres na imortalidade sem-fim. E quando serenaram os elementos do mundo nascente, quando a luz do Sol beijava, em silêncio, a beleza melancólica dos continentes e dos mares primitivos, Jesus reuniu, nas Alturas, os intérpretes divinos do seu pensamento. Viu-se, então, descer sobre a Terra, das amplidões dos espaços ilimitados, uma nuvem de forças cósmicas, que envolveu o imenso laboratório planetário em repouso.

Daí a algum tempo, na crosta solidificada do planeta, como no fundo dos oceanos, podia-se observar a existência de um elemento viscoso que cobria toda a Terra. Estavam dados os primeiros passos no caminho da vida organizada. Com essa massa gelatinosa, nascia no orbe o protoplasma e, com ele, lançara Jesus à superfície do mundo o germe sagrado dos primeiros homens. (...) Essa matéria, amorfa e viscosa, era o celeiro sagrado das sementes da vida. O protoplasma foi o embrião de todas as organizações do globo terrestre, e, se essa matéria, sem forma definida, cobria a crosta solidificada do planeta, em breve a condensação da massa dava origem ao surgimento do núcleo, iniciando-se as primeiras manifestações dos seres vivos.

Os primeiros habitantes da Terra, no plano material, são as células albuminóides, as amebas e todas as organizações unicelulares, isoladas e livres, que se multiplicam prodigiosamente na temperatura tépida dos oceanos. Com o escoar incessante do tempo, esses seres primordiais se movem ao longo das águas, onde encontram o oxigênio necessário ao entretenimento da vida, elemento que a terra firme não possuía ainda em proporções de manter a existência animal, antes das grandes vegetações; esses seres rudimentares somente revelam um sentido — o do tato, que deu origem a todos os outros, em função de aperfeiçoamento dos organismos superiores."

As afirmações de EMMANUEL não são invencionices romanescas. CLAUDE BERNARD, o eminente fundador da Fisiologia Geral, reconheceu a excepcional importância do protoplasma "como sede de todos os processos físicos e químicos vitais". Também os citolo-gistas utilizam o termo para conceituar globalmente o conteúdo vivo da célula. "Uma vez descoberta a importância universal da célula — escreveu ERNEST ROBERT TRATTNER, em seu livro "Arquitetos de Idéias" —, os biologistas deram assalto à sua estrutura interna, de modo muito parecido com o dos sucessores de Dalton a explorar o mundo intra-atómico.

Deparou-se-lhes um complexo sistema vivo que continha muitos componentes estruturais altamente diferenciados e de profunda diversidade química. Acima de tudo, descobriram o protoplasma, uma substância viscosa, acinzentada, translúcida, possuindo extraordinária uniformidade tanto nas células animais como vegetais. Colorida e observada ao microscópio, revela uma estrutura granular ou finamente reticulada. Dentro do protoplasma acha-se a parte central mais densa chamada núcleo, separada por uma membrana identificável.

Fisicamente, pouco se distingue do protoplasma; só difere dele na constituição química. Quimicamente, o protoplasma é formado por três quartas partes de água; a outra parte é constituída principalmente de proteína, açúcares, gorduras e sais. É no complexo proteínico do protoplasma que a Ciência procura hoje descobrir as propriedades últimas dessa coisa indefinível que se chama Vida."
Também Sua Voz comenta, em "A Grande Síntese": "No transformismo evolutivo aparece primeiro a matéria: a terra. Move-se depois a energia: a luz.

Nas cálidas bacias das águas, a mais alta forma evolutiva dinâmica concentra-se na potencialidade ainda mais alta de um novo Eu fenomênico e nasce o primeiro gérmen da vida, na sua primordial forma vegetal, que se alastrou depois sobre a terra e ascendeu às formas animais, sempre ansiosas de subir." O protoplasma era, na verdade, um fluido composto de água, proteínas, açúcares, gorduras, sais... e, o que é de decisiva importância, de mônadas espirituais, destacadas, pelos prepostos crísticos, dos cristais onde completaram seu estágio de individuação. Por isso, o protoplasma encerrava o gérmen da vida — o princípio espiritual que iria ensaiar seus primeiros movimentos no íntimo das células albuminóides.

"Decorrido muito tempo — esclarece ainda Emmanuel —, eis que as amebas primitivas se associam para a vida celular em comum, formando-se as colônias de polipeiros, em obediência aos planos da construção definitiva do porvir, emanados do mundo espiritual onde todo o progresso da Terra tem a sua gênese.

Os reinos vegetal e animal parecem confundidos nas profundidades oceânicas. Não existem formas definidas nem expressão individual nessas sociedades de infusórios; mas, desses conjuntos singulares, formam-se ensaios de vida que já apresentam caracteres e rudimentos dos organismos superiores."

Minudencia, depois disso, os longos e pacientes trabalhos dos operários de Jesus na elaboração das formas dos seres primitivos, fala do surgimento dos primeiros crustáceos, dos primeiros batráquios, das opulentas florestas primevas, dos répteis, do estabelecimento de "uma linhagem definitiva para todas as espécies, dentro das quais o princípio espiritual encontraria o processo de seu acrisolamento, em marcha para a racionalidade".

É no mesmo sentido o que registra "O Livro dos Espíritos". Tratando da formação dos seres vivos, em nosso mundo, é este o seu ensino: "No começo, tudo era caos; os elementos estavam em confusão. Pouco a pouco, cada coisa tomou o seu lugar. Apareceram então os seres vivos apropriados ao estado do globo. Á Terra lhes continha os gérmens, que aguardavam momento favorável para se desenvolverem. (...) Os Espíritos são a individualização do princípio inteligente, como os corpos são a individualização do princípio material."

Em seu livro "Evolução em Dois Mundos", escreve André Luiz: "Das cristalizações atômicas e dos minerais, dos vírus e do proto-plasma, das bactérias e das amebas, das algas e dos vegetais do período pré-câmbrico, aos fetos e às licopodiáceas, aos trilobites e cistídeos, aos cefalópodes, foraminíferos e radiolàrios dos terrenos silurianos, o princípio espiritual atingiu os espongiários e celenterados da era paleozóica, esboçando a estrutura esquelética.

Avançando pelos equinodermos e crustáceos, entre os quais ensaiou, durante milênios, o sistema vascular e o sistema nervoso, caminhou na direção dos ganóides e teleósteos, arquegossauros e labirintodontes, para culminar nos grandes lacertinos e nas aves estranhas, descendentes dos pterossáurios, no jurássico superior, chegando à época supracretácea para entrar na classe dos primeiros mamíferos,procedentes dos répteis teromorfos.

Viajando sempre, adquire entre os dromatérios e anfitérios os rudimentos das reações psicológicas superiores, incorporando as conquistas do instinto e da inteligência. Estagiando nos marsupiais e cetáceos do eoceno médio, nos rinocerotídeos, cervídeos, antilopídeos, equídeos, canídeos, proboscídeos e antropóides inferiores do mioceno e exteriorizando-se nos mamíferos mais nobres do plioceno, incorpora aquisições de importância entre os megatérios e mamutes, precursores da fauna atual da Terra, e, alcançando os pitecantropóides da era quaternária, que antecederam as embrionárias civilizações paleolíticas, a mônada vertida do Plano Espiritual sobre o Plano Físico atravessou os mais rudes crivos da adaptação e seleção, assimilando os valores múltiplos da organização, da reprodução, da memória, do instinto, da sensibilidade, da percepção e da preservação própria, penetrando, assim, pelas vias da inteligência mais completa e laboriosamente adquirida, nas faixas inaugurais da razão."

De absoluta coerência com todas essas assertivas é o ensino contido em "Os Quatro Evangelhos", obra psicografada por Mme. Collignon e publicada sob a coordenação de J.-B. ROUSTAING. Eis alguns de seus trechos: "Na Criação, tudo, tudo tem uma origem comum; tudo vem do infinitamente pequeno para o infinitamente grande, até Deus, ponto de partida e de reunião. (...) O fluido universal, que toca de perto a Deus e dele parte, constitui, pela sua quintessência e mediante as combinações, modificações e transformações de que é passível, o instrumento e o meio de que se serve a Inteligência Suprema para, pela onipotência da sua vontade, operar, no infinito e na eternidade, todas as criações espirituais, materiais e fluídicas destinadas à vida e à harmonia universais, para operar a criação de todos os mundos, de todos os seres, em todos os reinos da Natureza, de tudo que se move, vive, é. (...)

Ao serem formados os mundos primitivos, na sua composição entram todos os princípios, de ordem espiritual, material e fluídica, constitutivos dos diversos reinos que os séculos terão de elaborar. O princípio inteligente se desenvolve ao mesmo tempo que a matéria e com ela progride, passando da inércia à vida. (...) Essa multidão de princípios latentes aguarda, no estado catalético, em o meio e sob a influência dos ambientes destinados a fazê-los desabrochar, que o Soberano Mestre lhes dê destino e os aproprie ao fim a que devam servir, segundo as leis naturais, imutáveis e eternas por ele mesmo estabelecidas. (..)

08 - Perispírito e Durval Ciamponi - Corpo Mental -pág. 114

Mônada
O ser criado por Deus, ao individualizar o princípio inteligente unido ao princípio material, não tem um nome específico dentro da Codificação. Para preencher a lacuna vou chamá-lo de mônada, aproveitando um nome que parece corresponder ao conceito e à etimologia. Neste verbete do meu dicionário particular, escrevi que mônada é o ser criado simples e ignorante por Deus, quando uniu o princípio espiritual ao princípio material, como partes integrantes e inseparáveis uma da outra, como são a cara e a coroa, numa moeda.

Para não confundir conceitos, repito: a mônada não é tão somente o espírito ou o princípio espiritual ou o princípio inteligente ou a alma, mas cada um destes valores conceptuais, que são sinônimos, associados ao princípio material (fluido universal), dando origem ao ser que transitará através da escada evolutiva, desde os mais simples, nos reinos inferiores até sua chegada ao grau de Espírito Puro.

Embora não se devesse confundir, muitas vezes se utiliza tão somente as palavras espírito, princípio espiritual ou princípio inteligente como sinônimo de mônada, ou de mônada como princípio inteligente, como se utiliza alma por Espírito ou Espírito por alma.

Esta palavra não é avessa aos princípios doutrinários No livro Alternativas da Humanidade (Na Era do Espírito), edições FEESP, há um excelente trabalho feito por Astrid Sayegh, associando a Teoria da Mônada, de Leibniz, aos princípios da Doutrina Espírita, mostrando que a mônada é substância como realidade, e não substância enquanto conteúdo do pensamento, como um termo puramente psicológico de nossas vivências, mas substância enquanto realidade em si e por si, ou seja, que independe de qualquer realidade exterior a si.

André Luiz, em Evolução em Dois Mundos, capítulo III, por diversas vezes refere-se à mônada como esse ser que transita através dos filtros do transformismo dos diferentes graus da evolução anímica. Escreve:

a) A mônada vertida do Plano Espiritual sobre o Plano Físico atravessou os mais rudes crivos da adaptação e seleção...

b) As mônadas celestes exprimem-se no mundo através da rede filamentosa do protoplasma...

c) Com o aparecimento dos vírus, surge o campo primacial da existência... oferecendo clima adequado aos princípios inteligentes ou mônadas fundamentais, que se destacam da substância viva;

d) Mais tarde, assinalamos o ingresso da mônada... nos domínios dos artrópodos...

Edgard Armond, em Iniciação Espírita, tomo VII, Estudo dos Seres e da Vida, fala que as mônadas luminosas, emanadas do foco universal que é Deus,... atraem a si, automaticamente, o fluido cósmico universal, plasmável, do qual se revestem para ganhar forma. A mesma idéia Armond repete na conclusão desse estudo, ao dizer que estas centelhas de luz ou mônadas se individualizam atraindo a si o fluido cósmico com o qual se revestem e, automaticamente, caem no vórtice da involução.

Discordo quanto à expressão emanação de Deus, por
ser um conceito orientalista, porquanto o mais correto doutrinariamente seria criação de Deus. Também não considero lógica a afirmação de que as mônadas atraem para si, automaticamente, o fluído cósmico, porque isso mais parece o efeito de uma atração química, puramente material; mais ainda, nos dá a idéia de que o princípio inteligente poderia existir independentemente do princípio material, o que vai contra os princípios da Doutrina Espírita.

Em última análise, todavia, Armond nos transmite a idéia da existência de um ser formado de um princípio inteligente (centelha) e de um corpo oriundo do fluido universal. Gabriel Delanne também utilizou a palavra mônada em A Evolução Anímica, capítulo 11, ao dizer: Desde o aparecimento do protoplasma no seio dos mares primitivos, desde que as primeiras mônadas manifestaram fenômenos vitais...

J. Herculano Pires no seu livro Introdução à Filosofia Espírita, capítulo V, escreve: Compreendemos sem dificuldade que Deus cria os seres com os elementos constitutivos do Universo, e que os Espíritos são os seres múltiplos e finitos que Deus cria com o barro simbólico do princípio inteligente, envolvidos na ganga do fluido universal e do princípio material.

Em continuidade, afirma que "essência e forma constituem a existência". Tudo o que existe se constitui de uma essência que toma determinada forma e se reveste de matéria. A forma, como Aristóteles já descobrira, não pertence matéria mas dela se apossa para amoldá-la. Procede de um elemento intermediário: o fluido universal".

Como observação a estas palavras de Herculano, de acordo com os princípios espíritas, pode-se dizer: Em primeiro lugar, que se Deus cria os seres com os elementos constitutivos do universo, essa criatura não poderia existir ou ser um ser simples de um só destes elementos, porque se assim fora, desde a criação poderia ter sido. O raciocínio de Herculano está correto, quando coloca o fluido universal como intermediário entre o espírito e a matéria, conforme a questão 27 do LÊ.

Em segundo lugar, se tudo o que existe se constitui de uma essência que toma determinada forma, com o que concordo, essa forma procede ou decorre do fluido universal, que individualiza o ser como corpo, para que a essência (espírito) possa manifestar-se.

Em terceiro lugar, se os Espíritos dizem que fluido é fluido, como matéria é matéria, há que se deduzir que o espírito pode libertar-se da matéria, mas não pode libertar-se do fluido que é parte constitutiva de sua individualidade, desde a criação, sendo dele espírito, portanto, integrante e inseparável, conforme escreve Allan Kardec, em O Livro dos Médiuns e em A Gênese.

A parte formal, corpo físico e corpo espiritual são, em sua natureza, constituídos de matéria, por isso são perecíveis, mas a essência, espírito, e o corpo mental, formado do fluido universal, são imperecíveis. É esta parte imperecível, espírito e fluido universal, existente desde a criação até sua chegada a Espírito Puro que identifico como mônada.

Ao escrever A Evolução do Princípio Inteligente, Edições FEESP, disse que a matéria pode existir sem o princípio inteligente, mas que este, individualizado pela criação divina, não pode existir sem ela, conforme interpretava os ensinos dos Espíritos. Herculano Pires, em Agonia das Religiões, capítulo VII, também estudando o princípio inteligente, fala a mesma coisa. Diz: "No "fíat" ou "ato" inicial da criação temos a ação direta e ativa do pensamento divino estruturando a matéria.

Uma vez formada essa estrutura, surge um elemento novo que é designado pela expressão princípio inteligente". Este "transforma-se na mônada, elemento básico e estrutural da matéria, de que são compostas as próprias partículas atômicas".

Concluindo, ao se admitir a existência dessa unidade, criada por Deus, formada do princípio espiritual mais o princípio material (fluido universal), há que se admitir também que esse algo deva ter um nome específico.

Mônada me pareceu a palavra correta, conforme Pitágoras, Platão, Leibniz, Delanne, André Luiz, Herculano e outros. Tem-se assim nomes bem definidos:

a) Mônada - ser formado pela união do princípio inteligente e seu corpo mental, imperecíveis, integrantes e inseparáveis um do outro, qualquer que seja o mundo em que viva e o grau evolutivo em que se encontre;

b) Espírito - ser resultante da união da mônada, mais seu corpo espiritual perecível, formado, pelos elementos do mundo em que esteja vivendo, enquanto desencarnado;

c) Homem - ser formado pela união do Espírito, mais seu corpo físico perecível, no nível de encarnado.

Dentro desta idéia, o homem é, pois, formado pela união do princípio inteligente, mais o corpo mental, mais o corpo espiritual, mais o corpo físico.

O Espírito Puro é a mônada que retomou ao seio de Deus cheia de amor e sabedoria, adquiridos de experiência em experiência, em sua romagem evolutiva, ao longo dos milênios e milênios.