37 - Escola Aprendizes do Evangelho

"Não se espantem os adeptos com esta palavra — ensino. Não constitui ensino unicamente o que é dado do púlpito ou da tribuna. Há também o da simples conversação. Ensina todo aquele que procura persuadir outro, seja pelo processo das explicações, seja pelo das experiências. " (Allan Kardec. O Livro dos Médiuns. Capítulo III. Do Método. Item 18.)

Os que não se contentam em admirar a moral espírita, que a praticam e lhe aceitam todas as consequências. Convencidos de que a existência terrena é uma prova passageira, tratam de aproveitar os seus breves instantes para avançar pela senda do progresso, única que os pode elevar na hierarquia do mundo dos Espíritos, esforçando-se por fazer o bem e coibir seus maus pendores. As relações com eles sempre oferecem segurança, porque a convicção que nutrem os preserva de pensarem em praticar o mal. A caridade é, em tudo, a regra de proceder a que obedecem. São os verdadeiros espíritas, ou melhor, os espíritas cristãos. " (Id., ibid. Item 28.)

"O verdadeiro espírita jamais deixará de fazer o bem. Lenir corações aflitos; consolar, acalmar desesperos; operar reformas morais, essa a sua mis­são. " (Id., ibid. item 30.) Dispensável seria referirmo-nos à formação escolar do codificador da Doutrina dos Espíritos. Discípulo brühante de Pestalozzi (Pai da Pedagogia), além de conhecedor profundo dos diversos ramos da ciência, das filosofias, das religiões e dos idiomas, sempre esteve atuante no mundo das letras e no campo do ensino, em sua época, naquela que reunia o centro da cultura mundial, Paris, da França revolucionária, das idéias libertadoras.

Kardec, "o bom senso encarnado", fez, do campo experimental, no trato com o mundo dos Espíritos, um Corpo Doutrinário, de consequências morais ineludíveis, restaurador do Cristianismo puro, fundamentando cientificamente os princípios da sabedoria antiga já enunciados pelos Profetas e por Jesus, confirmando-os e dando-lhes igualmente cumprimento no esclarecimento das criaturas para realizarem a evolução do espírito.

Os ramos da Educação e do Ensino, em nossos dias, atingiram os cumes do conhecimento no contínuo processo de evolução humana, em todos os níveis ou classes sociais. Disciplina, trabalho, dever, comportamento social, respeito, amizade, responsabilidade, pontualidade, assiduidade são alguns dos importantes aprendizados que nas escolas cultivamos, principalmente na infância e na juventude, além do conhecimento propriamente dito que absorvemos. Hoje, até mesmo auto-avaliação os alunos estão fazendo nas escolas, o que representa importante treinamento da reflexão interior, da auto-análise, do conhecimento de si mesmo.

A Didática reúne todo o conjunto sistemático de princípios, normas e técnicas de orientação da aprendizagem. Ora, a vida é um processo contínuo de aprendizagem. A evolução do espírito é um processo infinito de aprimoramento, em que a aprendizagem é um dos mais importantes meios. Somos todos, sempre, até o infinito, aprendizes. A aplicação, portanto, da Didática no ensino do Espiritismo, dentro dos seus objetivos transformadores do caráter humano, no sentido evangélico, é o que procurou introduzir, na década de 1940, o Sr. Edgard Armond, quando nas funções de secretário-geral da Federação Espírita do Estado de São Paulo.

Foram assim criadas as Escolas de Aprendizes do Evangelho, cuja fundamentação precípua repousa exatamente na prática da reforma íntima, no ensino da vivência e da aplicação da Doutrina dos Espíritos.

A Escola de Aprendizes do Evangelho, que abreviaremos como EAE daqui por diante, sempre foi livre ao acesso de quem nela desejasse ingressar, embora esteja estruturada num regime escolar. E quem por ela optar, nela inscrevendo-se, toma conhecimento que a disciplina, o trabalho, o dever, a sociabilidade, o respeito, a amizade, a responsabilidade, a pontualidade, a assiduidade serão solicitados dos seus participantes.

A EAE está constituída para conduzir os alunos a praticar a moral espírita, a compreender a finalidade da existência terrena e a avançar pela senda do progresso, esforçando-se por coibir seus maus pendores, tornando-se, assim, verdadeiros espíritas, ou espíritas cristãos. (Allan Kardec. O Livro dos Médiuns. Capítulo III. Do Método. Item 28.)

A duração da EAE é de aproximadamente três anos, e a apuração do aproveitamento individual reside precisamente na apresentação periódica de testes e da auto-avaliação da sua reforma íntima relatada numa caderneta, que um dirigente capacitado analisa, fazendo-o com amor e alto espírito de compreensão, cônscio da importância e delicadeza da sua relativa função de orientador evangélico, assistido pelos Instrutores Espirituais.

O dirigente, o secretário e os expositores são preparados para conviverem com os alunos de modo fraterno, propiciando-lhes uma atmosfera receptiva, acolhedora, sem distâncias ou separações autoritárias, pois todos entendem que estão sempre na condição de aprendizes. O ensino é transmitido pelo processo das explicações e pela experimentação. (Id., ibid. Item 18.) Quando o dirigente é solicitado pelos aprendizes para prestar esclarecimentos ou ministrar orientações, em caráter coletivo ou mesmo individual, a abordagem é feita dentro de um princípio psicológico de não interferência, estimulando-os à reflexão e à descoberta dos seus próprios desejos, deixando-lhes totalmente livres para tomar e assumir suas decisões pessoais, valorizando, assim, os seus testemunhos. (A. Benjamim. A Entrevista de Ajuda.)

De que modo o ensino é transmitido pelo processo das experiências? As experiências são vivenciadas no próprio ambiente da EAE e na vida prática fora dela, isto é: na turma o aluno apresenta os temas que desenvolve por escrito em casa, no seu Caderno de Temas, que por sua vez também vale nota de aproveitamento. Esses temas são todos alusivos ao nosso comportamento, e de aplicação no nosso convívio familiar, social, profissional. No grupo o aprendiz também se beneficia dos exemplos dos próprios colegas, todos interessados em se aprimorar intimamente. Fora da EAE as experiências cotidianas passam a ser mais observadas, são elas discutidas e abordadas em seus diferentes aspectos, pelos expositores, dirigente e secretário(a): transferem-se de dentro da EAE para a sua aplicação na vida diária, fora dela.

Na EAE o incentivo à caridade é acentuado, o trabalho ao próximo é estimulado, nas oportunidades criadas dentro das aptidões de cada apren­diz, seja na assistência espiritual, visitas a hospitais, creches, abrigos, nos serviços de moral cristã à infância, nas explanações evangélicas, no atendimento ao público que busca socorro, nas entrevistas de ajuda e orientação, na ordem da movimentação dentro do Centro Espírita, na livraria, no controle de fichas de atendimento, na limpeza e arrumação dos salões e tantos outros afazeres que os trabalhos numa Casa Espírita podem oferecer. Entende-se, na EAE, que "o verdadeiro espírita jamais deixará de fazer o bem". (Allan Kardec. O Livro dos Médiuns. Capítulo III. Do
Método. Item 30.)

O "Conhece-te a ti mesmo" e a "prática da abnegação", como meios pragmáticos e eficazes de se melhorar, de resistir ao arrastamento do mal e de combater o predomínio da natureza animal (Id. O Livro dos Espíritos. Perguntas 912 e 919), são ensinados experimentalmente num aprendizado em grupo nas EAEs.

Nas EAEs são ensinadas As Bases do Transformar-se, como iniciá-las conhecendo O Que se Pode Transformar Intimamente, e como exercê-las aplicando Os Meios Para Realizar as Transformações, que constituem as partes I, IIe III.

Pela apuração dos resultados do aproveitamento individual, os alunos passam por estágios, ou graus escolares, que são divididos em:

Aprendiz: - preparação individual

Servidor: - serviço e testemunhação.

Discípulo: - continuidade e perseverança ( no âmbito da Fraternidade dos Discípulos de Jesus.)

O programa de aulas das EAEs inicia-se com um Curso Básico de Espiritismo, que pode variar de doze a vinte aulas, conforme as necessidades dos alunos e a orientação dos dirigentes do Grupo Espírita. Nesse Curso já são dados os esclarecimentos, em detalhes, de como funciona a EAE, os seus objetivos e o que se espera de um aprendiz Curso Básico de Espiritismo. Ed. Aliança, e Guia do Aprendiz (Edgard Armond). Ed. Aliança].

Ao ingressar na EAE, o aluno já é levado a responder o primeiro teste de uma série de cinco, como também a adquirir o seu caderno de temas e a sua caderneta individual. Como a caderneta vai apenas resu­mir testes, títulos dos temas dados, serviços prestados ao próximo, au-to-avaliações sumárias e notas dos exames espirituais, em alguns Centros, solicita-se também um caderno para o aluno relatar as suas experiências no terreno do aprimoramento íntimo, porém sem necessidade de apre­sentação na EAE. Esse caderno de reforma íntima pode ser utilizado como um diário pessoal para quem prefira registrar fatos e experiências, impul­sos, reações, ajudando, desse modo, a sua auto-avaliação.

Na caderneta escolar, o aprendiz é solicitado a resumir periodica­mente os resultados alcançados no tocante à reforma interior, relativa­mente aos vícios, aos defeitos e às virtudes (II Parte deste livro), sem necessidade, portanto, de incluir ou declinar particularidades, nem esten­der-se em casos pessoais.

Após o Curso Básico de Espiritismo, tem início o programa da EAE, que segue uma sequência de aulas expositivas, aulas de revisão e onde tam­bém podem ser incluídas conversações esclarecedoras com a turma, quan­do necessário, entre dirigentes, supervisores e alunos.

As aulas expositivas, em número de aproximadamente 92, conforme
Programa adotado pela Aliança Espírita Evangélica, ordem:
(I Vol.) (I Vol.) (O Reden1 (III Vol.) (III e IV (V Vol.) (VI Vol.) (VII Vol. (VIII Vol (IX Vol.)

A Criação 4 aulas

O Povo Hebreu e Moisés 6 aulas

A Vida de Jesus 29 aulas

Interpretação do Sermão do Monte 4 aulas

Vida e Atos dos Apóstolos 15 aulas

Ciência e Religião 8 aulas

Estudo dos Seres e das Formas 4 aulas

Leis Morais 11 aulas

Conduta Espírita 6 aulas

Estudos e Temas 5 aulas

TOTAL GERAL 92 aulas


A orientação para funcionamento de uma EAE e seij aulas são indicados no livro Aliança: Vivência do Espiritis de Edgard Armond (Ed. Aliança), e as aulas acima estão « culos com o título Iniciação Espírita (Ed. Aliança), com livro O Redentor, de Edgard Armond, que constitui o II V aulas sobre a Vida de Jesus.

O Setor III da Fraternidade dos Discípulos de Jesus í grama semelhante, com algumas alterações na ordem e no co resumido abaixo:

Iniciação Espiritual l aula

A Criação 5 aulas

O Povo Hebreu e Moisés 6 aulas

A Vida de Jesus (Histórico) 13 aulas

Os Ensinos de Jesus — Parábolas 3 aulas

OsEnsinosde Jesus—Sermão do Monte 8 aulas

Vida e Atos dos Apóstolos 15 aulas

Conduta Espírita 9 aulas

Ciência e Religião 3 aulas

Estudo dos Seres e das Formas 4 aulas

Génese 4 aulas

Leis Morais 14 aulas

Problemas Atuais 6 aulas

TOTAL 91 aulas

Prática da Reforma Intima 13 aulas

TOTAL GERAL 104 aulas

A EAE oferece uma formação espírita prática a quaisquer níveis de escolaridade, ensinando como vivenciar o Evangelho de Jesus à luz do Espiritismo, preparando o aprendiz para ser um servidor dessa Doutrina e, pelo trabalho, constituir-se num autêntico discípulo de Jesus, que a partir de então torna-se um elemento mais atuante nas transformações próprias e do seu meio, contribuindo sempre na prática da caridade desinteressada e na propagação do bem.

Embora se desfaça a coesão do grupo que forma cada turma da EAE, o então discípulo, ao seu término, já se encontra engajado nas tarefas doutrinárias, que o auxiliam a se manter integrado nos ideais que alicerçou durante três anos. Passa, então, a fazer parte da Fraternidade dos Discípulos de Jesus, que se caracteriza pela união de todos os que se esforçam e desejam permanecer ligados, realimentados nos seus propósitos pelo convívio fraterno no trabalho ao próximo, no estudo, no aprimoramento contínuo que naturalmente prossegue nessa e nas reencarnações sucessivas.

A Federação Espírita do Estado de São Paulo, pioneira a partir de 1950, quando iniciou a primeira turma da EAE, segue hoje nas Escolas um programa de estudo com a duração de quatro anos, em que no primeiro ano é conduzido o Curso Básico de Espiritismo, como estágio introdutório a qualquer curso da FEESP. A matéria desse Curso Básico está contida nos dois livros de autoria do Engenheiro Rino Curti, intitulados Espiritismo e Reforma Intima o Espiritismo e Evolução (Ed. FEESP).

"A reforma íntima, de que as Escolas da FEESP se tornam promotoras, é esta de nos propiciar o conhecimento doutrinário, corrigindo nossas falsas noções, preconceitos, falhas de educação, arranhões de caráter, hábitos indesejáveis, a fim de que, com ele harmonizados, possamos nos constituir nesse homem íntegro, equilibrado, exemplo e força de uma sociedade bem constituída, fator de ordem, progresso e harmonia." (Rino Curti. Espiritismo e Reforma Intima. Capítulo V. A Noção de Reforma Intima. Item 5.2.)

A matéria que compreende o programa das aulas nas EAEs da FEESP, parcialmente publicada, se constituirá numa série de oito volumes, em dois ciclos, o primeiro com dois anos de duração. Os cinco primeiros livros já foram lançados, são eles: Monoteísmo e Jesus — Tomo 1° , Volume 1° ;... Homem Novo - Tomo 1°, Volume 2° ; Do Calvário ao Consolador — Tomo 2°, Volume 1°; Bem-Aventuranças e Parábolas. . . — Tomo 2°, Volume 2° ; As Epístolas de Paulo e O Apocalipse de João — Tomo 3°, Volume 1°.

Os demais tomos e volumes (Tomo 3 °— Volume 2°, Tomo 4°-Volumes 1° e 2° ) acham-se em elaboração e fazem parte do segundo ciclo que "será dedicado exclusivamente ao estudo dos problemas do destino, da dor, do sofrimento, das leis e normas da vida espiritual, da conduta cristã", da conquista das virtudes evangélicas e da abordagem dos problemas da atualidade, do ponto de vista espírita". (Monoteísmo e Jesus, Explicação, FEESP, Área de Ensino, Edições FEESP.) Comparando-se os três programas da EAE acima citados, observamos que todos incluem, em sua maioria, o estudo dos mesmos assuntos, numa ordem ou noutra, o que bem identifica a unidade de princípios.

Embora os programas de estudo possam apresentar variações na sequência e na forma de abordagem dos assuntos neles incluídos, a essência e o sentido moral dos mesmos são mantidos. Todas as EAEs, da FEESP, da Aliança Espírita Evangélica e do Setor III da FDJ, enfatizam e conduzem os seus alunos à realização do seu objetivo fundamental, ou seja: a transformação individual da criatura humana dentro do Evangelho de Jesus.

Nesse aspecto admitimos ser de suma importância, e de grande valia, ensinarmos nas EAEs não apenas a matéria de estudo que nos esclarece e conscientiza a necessidade das mudanças de comportamento, mas, também, introduzirmos o aprendizado prático de como trabalharmos com o nosso mundo interior, exercitando na própria turma esse treinamento, mostrando como poderá ser realizado eficazmente, oferecendo aos aprendizes um roteiro de como melhor aplicar os seus esforços, não deixando-os entregues a diferentes interpretações e sujeitos a fracassos.

Propomos que se faça a análise desse opúsculo, objetivando a sua utilização na forma de aulas práticas (Veja Capítulo IV.2.2. Programa de Aplicação - B), a serem introduzidas nas instituições que desenvolvem e promovem as Escolas de Aprendizes do Evangelho.

Ney Prieto Peres