O PRESENTE É MINHA REALIDADE

Pediram-me para falar o que faço, sobre meus sonhos e caminhos. Tudo isso em cinco minutos. Uma tarefa impossível, mesmo que eu não tivesse Síndrome de Down. As palavras do canadense David McFarlene, e de outros cinco adultos, sacudiram a platéia que lotava o salão do Hotel Swan para a abertura oficial do Congresso referente à V Conferência Internacional de Síndrome de Down, realizada em Orlando, EUA, em agosto de 1993.

Durante os cinco minutos concedidos a cada um deles para que dessem seu recado, eles fizeram muito mais. Deixaram em cada um dos presentes a certeza de que toda pessoa com a síndrome é capaz de atingir suas potencialidades. A nós cabe encorajá-las e assegurar-lhes as oportunidades para atingi-las. Neste ponto, eles foram unânimes.

Este relato, apresentado em um dos mais importantes livros sobre os Down já publicados no Brasil , divulga outras informações sobre a vida desses seres que, quando chegam em nossas vidas, vêm para ocupar um espaço definitivo nos corações, com tamanha força que modificam para sempre nossa forma de encarar as dificuldades da existência.

Na mesma conferência, outro rapaz, o americano Mitchell Lewitz, 22 anos, deixou claro que o sucesso de uma pessoa com a síndrome depende da fé em si mesmo. Ativo politicamente, Mitchell já foi assessor de dois deputados estaduais, defendendo os direitos dos que trazem em si os sintomas. "Luto por direitos iguais, em todos os níveis, para evitar segregação nas escolas, comunidades, e para termos as mesmas oportunidades de emprego."

A causa da Síndrome de Down foi descoberta pelo cientista francês Jerome Lejeune em 1958. Estudando os cromossomos de algumas pessoas, ele percebeu que ao invés de terem 46 por célula, agrupados em 23 pares, tinham 47, ou seja, um a mais. Algum tempo depois, Lejeune identificou este cromossomo extra justamente no par 21, que em vez de dois, passava a ter três cromossomos. Por isso a Síndrome de Down é também chamada "áetríssomia dopar 21".

Trata-se de um acidente genético que pode acontecer com qualquer casal, em qualquer idade. O termo síndrome significa um conjunto de sinais e de sintomas que caracterizam um determinado quadro clínico. No caso em tela, um dos sintomas é a deficiência mental. Em razão do excesso de material genético, provocado pela anomalia cromossômica, várias reações químicas, essenciais ao bom desempenho dos sistemas do organismo, não se fazem de forma apropriada.

O termo Down foi uma homenagem prestada por Lejeune ao cientista inglês John Langdon Down, que, em 1866, questionou por que algumas crianças, mesmo filhas de pais europeus, eram tão parecidas entre si e tinham traços que lembravam a população da raça mongólica, principalmente pela inclinação das pálpebras, similares à dos asiáticos. Na época, ele afirmou que "o cabelo não é preto, como acontece com o povo mongol, mas de uma cor amarronzada, além de serem ralos e lisos.

A face é achatada e larga. Os olhos são oblíquos e o nariz é pequeno. Estas crianças têm uma considerável capacidade de imitar". O quadro de lutas e esforços para superação dos limites, por parte dos que têm a síndrome, despertam em nós reflexões gravíssimas, acerca do que a sociedade carrega ainda de preconceito para com os Down. Quantas restrições nossos irmãos em luta passam por causa da falta de informação de educadores e comunidades, que preferem afastá-los da convivência com os grupos, como se essa característica morfogenética não pudesse nunca ocorrer dentro de suas próprias casas.

O receio de não gerar um filho saudável e perfeito é comum a todos os casais. A evolução da ciência permite hoje que se façam exames detalhados sobre a saúde do bebê, mesmo antes do nascimento. O que provoca apreensão nos que compreendem a vida como algo que vai além dos limites de uma única encarnação, é o fato de alguns pais, assim que detectam, através dos exames preventivos, que seu futuro filho tem problemas de ordem genética ou de qualquer outra espécie, decidem provocar o aborto programado, para não terem de sofrer com a presença de uma criança deformada e carente de atenção por longos anos de existência.

Não poderia ser pior essa forma de lidar com os recursos tecnológicos. A ciência avança para ampliar, sobretudo, a consciência do homem, tornando-o capaz de assimilar a grandeza do que significa viver. Ter nas mãos a possibilidade de decidir sobre o nascimento ou não de uma criança é sempre um ato de extrema responsabilidade, o que, por si só, justifica a necessidade da busca permanente de conhecimentos sobre o que existe além da vida, para que nossas decisões não sejam caracterizadas pelo imediatismo e pela pequenez de um horizonte egoísta, que permite vejamos somente até a ponta de nossos próprios dedos.

A notícia chega ao lar. A expectativa do nascimento de uma criatura linda e saudável é marcada pela informação de que o bebê tem características de mongolismo, como vulgarmente (e equivocamente) a síndrome é chamada.'". Começa um novo período de adaptação da família, para aceitar o fato de que o bebê que acaba de entrar em sua vida tem detalhes que o tornam diferente... e especial.

Obviamente, o casal vai passar por um período de luto pela morte do filho saudável que tanto imaginaram mas que não nasceu. Os estudiosos do fato entendem que superar esse período é fundamental para que toda a família consiga estabelecer vínculos afetivos verdadeiros com o bebê real que tanto depende deles para sobreviver.

É chegado o momento de aceitá-lo com todas as suas limitações. Permitir que a tristeza advinda da chegada de um filho diferente venha, cresça, incomode, machuque é uma atitude muito mais saudável do que aparentar autocontrole só para não criar constrangimentos entre a família e os outros filhos. É preciso desafogar a alma de sentimentos que possam afastar, em vez de aproximar.

Na verdade, todos dentro de casa, dos pais aos filhos, têm de se reestruturar emocionalmente. Aos poucos, a consciência de que cada criança tem em sua estrutura um fator genético e outro ambiental começa a modificar o lar, fazendo com que a chama interna do amor que todos trazem inata comece a modificar a relação com o bebê, com o bercinho, o quarto, a casa, e nela passe a morar também o desejo pela estimulação necessária, pela educação e pelos cuidados básicos, fatores esses que dependem da ajuda de todos.

Quanto mais úteis todos se sentirem, mais confortados em termos emocionais estarão. O Espiritismo surge em nossas vidas como o sol invade as trevas da madrugada, dissipando a escuridão em nome de um novo dia. O consolo das informações corretas acerca do ontem tem o poder de colocar-nos em sintonia com a dignidade de viver, fazendo de nosso presente uma porta aberta para a construção de um amanhã feliz.

Allan Kardec estuda, em O Evangelho segundo o Espiritismo , no item referente às causas anteriores das aflições, que há males que parecem atingir o homem como por fatalidade. Tais são, como exemplo, a perda de seres queridos; os arrimos de família, os acidentes que nenhuma providência poderia impedir; os reveses de fortuna que frustram todas as medidas de prudência; os flagelos naturais e as enfermidades de nascimento, sobretudo as que tiram aos infelizes os meios de ganhar sua vida pelo trabalho, como as deformidades, a idiotia, o cretinismo, etc.

O Codificador questiona, ainda, o que dizer dessas crianças que morrem em tenra idade e não conheceram da vida senão o sofrimento? Problemas que nenhuma filosofia pôde resolver, anomalias que nenhuma religião pôde justificar, e que seriam a negação da bondade, da justiça e da providência de Deus. Kardec apresenta outra questão, de igual profundidade das demais: "que fizeram essas almas, que para alguns acabaram de sair das mãos do Criador, para suportar tantas misérias neste mundo, e merecer, no futuro, uma recompensa ou uma punição qualquer, quando não puderam fazer nem o bem nem o mal?"

Na sequência do capítulo, o professor lionês esclarece, aos que enxergam a vida pelo enfoque míope de uma só existência, que essas misérias são efeitos que têm uma causa; desde que se admita um Deus justo, essa causa deve ser justa. "Ora — diz Kardec — a causa precedendo sempre o efeito, uma vez que não está na vida atual, deve ser anterior a ela, quer dizer, pertencer a uma existência precedente."

Os sofrimentos, portanto, por causas anteriores, conforme explica Kardec, são, frequentemente, como os das faltas atuais, a consequência natural da falta cometida. Por uma justiça rigorosa, o homem suporta, na realidade de seu presente, o que fez os outros suportarem; se foi duro e desumano, ele poderá ser, a seu turno, tratado duramente e com desumanidade; se foi orgulhoso, poderá nascer em condição humilhante; se foi avarento e egoísta, poderá ser privado do necessário; se foi mau filho, poderá sofrer com os próprios filhos.

O médium Chico Xavier respondeu, certa vez, em um programa de televisão", sobre a condição dos chamados excepcionais. Para ele, a criança excepcional sempre o impressionou, pelo sofrimento de que é portadora, não somente em se tratando dela mesma, mas também dos pais.

Na visão de Emmanuel, segundo a mesma entrevista, a criança excepcional é o suicida reencarnado. Os remanescentes do ato praticado acompanham a criatura que cometeu a autodestruição, e ela acaba voltando à Terra com as características que levou daqui mesmo.

Conforme o texto, Chico afirma que se uma pessoa espatifou o crânio e o projétil atingiu o centro da fala, ela volta com a mudez. Se atingiu apenas o centro da visão, volta cega, mas se feriu regiões mais complexas do cérebro, vem em plena idiotia, e aí os centros fisiológicos não funcionam.

Se ela suicidou-se, mergulhando em águas profundas, vem com a disposição para o enfisema pulmonar. Se ela se enforcou, vem com a paraplegia, que pode ocorrer, por exemplo, depois de uma queda simples, pelo fato da vértebra deslocada no ato do suicídio voltar mais fraca no novo corpo.

A esquizofrenia, de acordo com a resposta de Chico, é o resultado da condição mental do ser que se suicidou após haver cometido homicídio. O complexo de culpa adquire dimensões tamanhas que o quimismo do cérebro se modifica e vem a esquizofrenia como uma doença verificável, através dos líquidos expelidos pelo corpo.

Na mesma entrevista, o médium mineiro faz uma observação importante. Afirma que a criança com características mentais diferenciadas sente, ouve, registra e sabe de que modo está sendo tratada; ela é profundamente lúcida na profundidade do próprio ser. Certa feita, contou, uma senhora o procurou em Uberaba e disse:

— Sou mãe dessa criança excepcional. Sinto-me uma pessoa amarga, sofro muito. O que Emmanuel diz pra mim? E o mentor respondeu:— Minha filha, a maternidade é um privilégio que Deus concedeu à mulher. Toda mulher desfruta desse privilégio da Providência Divina, mas os filhos excepcionais são confiados tão-somente às grandes mulheres, que demonstram uma capacidade de amar até o infinito.

Ao nos referirmos, neste capítulo, às crianças especiais, com destaque para as com Síndrome de Down, quisemos fazer uma relação entre a experiência atual de vida delas e as possíveis relações dos fatos do presente com as causas elaboradas no passado, em anteriores existências, já que nessa etapa reencarnatória elas nada fizeram que justificasse algum tipo de punição por erros cometidos.

Para o bem da verdade, vale destacar que, segundo o Espiritismo, Deus não pune ninguém. É a própria criatura que, diante da consciência — sublime recanto interior onde a noção justa da Lei de Amor reside em si — resolve determinar tudo que lhe é necessário viver para resgatar seus débitos para com o Equilíbrio Universal.

No caso estudado, não só o filho está incurso na reeducação de si mesmo, mas igualmente todos que lhe compartilham o ambiente familiar. A união dos esforços faz com que, em breve futuro, todos constatem as melhoras, e passem a preparar os caminhos para, aí, sim, não mais expiarem faltas e reparar estragos do passado, mas sim arar a terra e trabalhar a sementeira do amanhã, melhor e mais leve, totalmente desanuviado das manchas obscuras do passado delituoso.

O Espiritismo nos sugere que, toda vez que vejamos alguém conduzindo um filho excepcional pelas ruas, tenhamos o desejo sincero de rogar ao Alto, em prece, por aquela mãe, ou aquele pai. Eles foram corajosos o bastante para aceitar e receber, dentro de casa, aquele ser que trouxe no próprio corpo e no psiquismo as marcas do resgate.

Roguemos, também, por nós, se estivermos nessa condição, para que as belezas da vida, enviadas incessantemente por Nosso Pai, suavizem nossas dores, a fim de que, sendo fiéis nessa boa luta, possamos merecer, mais à frente, a paz de consciência de que tanto precisamos.

Carlos A. A.