A DOR É MEU AVISO

Os pais não conseguiam mais esconder a angústia com a situação do filho Daniel. Com apenas três anos, ele começou a perder o sentido correto dos passos. Ao caminhar, ia pendendo para um dos lados, até que num determinado dia bateu com a cabeça na beirada da porta, quando nada lhe impedia de seguir o traçado certo. Foi o bastante para que decidissem levá-lo imediatamente a um pediatra, a fim de fazer os exames necessários.

O médico da criança indicou uma ressonância nuclear magnética, em busca de um rastreamento detalhado de todas as atividades cerebrais do garoto. Com o resultado nas mãos, o especialista afirmou, objetivamente, que o menino tinha um tumor maligno no cérebro, localizado na região do quarto ventrículo, responsável pela locomoção, e que o tratamento deveria ser iniciado imediatamente.

Dois dias depois, Daniel estava internado para o ato cirúrgico. O meduloblastoma — nome desse tipo de tumor — havia sido extirpado, e o menino teria de prosseguir, a partir de agora, com aplicações quimioterápicas para eliminar completamente qualquer resquício de células cancerígenas no corpo.

Vigilantes com a saúde do filho, os pais começaram também, aos poucos, a entender o que significa para a família a presença de uma criança com uma doença grave dentro do lar. Assim como o câncer, a síndrome de Down, a AIDS, as doenças mentais, dentre outras, também provocam modificações profundas e definitivas na vida dos envolvidos. A necessidade de acompanhamento permanente, de uma entrega verdadeira no sentido afetivo e espiritual fazem com que a vida dos que se comprometem com a cura dos enfermos nunca mais seja a mesma.

Por força do tratamento médico, Daniel perdeu todos os cabelos e passou boa parte do período sem vontade de ver-se no espelho, por achar-se muito diferente dos demais. O pai, atento às necessidades emocionais da criança, resolveu então raspar igualmente a cabeça e apresentar-se às visitas com uma feição parecida com a do filho. Essa atitude devolveu ao menino a auto-estima, e ele voltou a ter coragem de brincar, ir à escola e conviver com os colegas e amigos.

Mais feliz ainda ele ficou quando recebeu, um dia, a visita de seu melhor amigo do colégio. Ele também havia raspado a cabeça, para mostrar a Daniel que nada no mundo, nem uma doença que temporariamente estava tirando sua alegria, poderia destruir uma amizade tão forte.

Depois de dois anos de tratamento (Daniel já estava com cinco de idade), a família encontrava-se reunida na sala da casa, quando o filho queixou-se de dores pelo corpo. O pai, que sempre cantava músicas de conteúdo elevado para o menino descansar, lembrou-se de uma canção que aprendera com um colega, no trabalho. Em um trecho, ela diz assim: Vamos transformar a dor em luz, em paz, em amor.

Ao cantarolar baixinho no ouvido do filho, sentiu que a letra transmitia uma verdade incontestável. A dor, para ser transmutada em forças espirituais de forte apelo renovador.

Aquele pequeno trecho serviu para que ele, pai, através de suave carícia nos cabelos de Daniel, agora crescidos, aliviasse o sofrimento do pequenino, além de iniciar um interessante diálogo com a mãe, acerca dos reais valores do espírito, os que devem ser burilados durante a experiência da vida.

— Você já imaginou quantas crianças estão, nesse momento, morrendo de câncer, quando poderiam estar sendo tratadas? Quantos pais poderiam estar levando seus filhos para um diagnóstico precoce
de qualquer doença, quando a cura é mais fácil de ser conseguida, e não o fazem por absoluta desinformação?

— Realmente — respondeu a mãe — é preciso criar uma forma de esclarecer as famílias sobre a importância de se atender uma criança no começo da doença; no caso do câncer, por exemplo, as chances de cura são de até 80%, mas eu destaco outro problema grave; e os custos do tratamento, sempre elevados em casos como o nosso, por exemplo. Não seriam outro impedimento forte à busca de uma solução?

— Tem razão — refletiu o pai — mas não é por causa desse fator que vamos desistir da luta para salvar a vida de nossos pequenos. É preciso criar um núcleo que auxilie crianças com doenças graves, com o objetivo de aumentar a expectativa de vida e permitir um tratamento adequado a elas e suas famílias. Mais importante ainda — asseverou — é deixar a sociedade informada sobre as doenças infantis e formar grupos de apoio aos menores enfermos.

É bom destacar que pouco podemos fazer se não contarmos com a colaboração de pais e voluntários, que desejem ser os porta-vozes reconhecidos das necessidades e interesses das crianças acamadas. No dia seguinte, inspirado pela conversação, o casal resolveu procurar outras famílias envolvidas em casos semelhantes, para formar uma equipe de estudos que se interessasse em criar um trabalho organizado e apto a atender aquelas circunstâncias.

Ficaram, então, sabendo que algumas instituições já estão atuando com grande eficiência nessa área . Imediatamente, procuraram vincular-se a grupos já existentes, para superar dificuldades iniciais e vencer o tempo na luta pela sobrevivência dos seus e dos filhos alheios.

Aquele era um dia especial. O pai de Daniel faria, pela primeira vez, alguns comentários para outros pais, que conheceram o núcleo e começaram a encontrar respostas para as dificuldades enfrentadas pela chegada precoce de uma doença grave em casa. Antes de começar a falar, pensou em Deus e rogou por auxílio; gostaria de se referir especialmente ao otimismo e à esperança, já que estava diante de corações machucados por expectativas sombrias, perante a possibilidade do filho amado sair da vida prematuramente.

O tema escolhido foi justamente a dor. Lembrou, logo no início, que ele estava ali por causa da criatura que mais amava na face da Terra: o filhinho Daniel, enfermo de câncer desde os três anos de idade, e que agora se encontrava curado. Essa palavra — curado — provocou uma reação visível nos ouvintes, como que a insuflar neles a possibilidade de que a cura poderia também acontecer com os seus amores, para que a alegria voltasse a morar definitivamente em seus lares.

— A dor é um aviso — comentou aquele homem transformado — que nos bate na porta quando menos esperamos ou estamos preparados para enfrentá-la. Ela chega, com o vigor de quem nos toma desprevenidos, e dá a impressão de que vai vencer a luta contra nossa força de vontade e perseverança. Mais eis que de dentro de nós surgem recursos emocionais desconhecidos, que rompem de vez nossas couraças de timidez e acanhamento, e nos colocam a postos, única e exclusivamente por amor.

Descobrimos que o sentimento por nossos filhos é muito maior do que qualquer definição teórica, das que encontramos nos mais elevados livros que tratam do assunto.— Esse aviso — prosseguiu — é o chamado definitivo e talvez mais grave de nossas vidas. Somos convocados a salvar nossos pequenos e trabalhar pela vida dos que também sofrem dores semelhantes. Não, não queremos solucionar os grandes males do planeta.

Desejamos apenas viver a nossa experiência — única e intransferível — de amar, sem limites, com desprendimento total e absoluto — os que nos foram entregues por mercê de Deus, para que lhes oferecêssemos, muito mais do que alimento e proteção para o corpo, a sagrada certeza de que são intensamente desejados por quem colaborou para que viessem ao mundo, e que tudo faremos para que permaneçam conosco, enquanto o Pai permitir.

Emocionado com o depoimento apresentado, o pai de Daniel encerrou o encontro afirmando:— Daqui a muitos anos, meus amigos, não nos importará qual o tipo de roupa que usamos hoje; se estivemos ou não na moda, se fomos ou não capazes de nos adaptar aos tempos da modernidade. Daqui a muitos anos, não nos importará se conseguimos ter recursos suficientes para comprar uma bela mansão, ou se conseguimos adquirir o carro da geração-sucesso.

Daqui a muito tempo, tudo isso não nos valerá. Valerá, isto sim, se saímos da vida com a plena convicção de que fomos importantes na vida de uma criança. Que ela tenha sido nossa filha ou não, não importa. O que interessa é que deixamos para ela, dentro de seu coração, a marca indelével do amor que ora estava conosco transitoriamente, e que agora nos habita para sempre, em função de muito termos amado.

Carlos A. A.