CAPÍTULO 10: A CRIANÇA OBSIDIADA

A Criança Obsidiada: Como Proceder?

... "Ora, ao efeito precedendo sempre a causa, se esta não se encontra na vida atual, há de ser anterior a essa vida, isto é, há de estar numa existência precedente. "Allan Kardec

"O Evangelho Segundo o Espiritismo" Capítulo v: item 6.

Sombrio é o panorama da atualidade terrena. A mídia divulga a todo momento quadros dolorosos de miséria, crueldade, terrorismo, tortura, guerras, tudo isto a expressar as condições evolutivas da Humanidade. Entretanto, numa visão mais profunda, o Espiritismo esclarece as causas dos desencontros e dos sofrimentos que assolam os seres humanos, ao mesmo tempo em que desvenda o contínuo intercâmbio mental entre os dois mundos e seus habitantes, encarnados e desencarnados. Esta interação, todavia, nem sempre é positiva e benéfica. Tanto lá como aqui, as criaturas são as mesmas, com suas paixões e vícios, suas virtudes e conquistas positivas.

Conforme foi dito nos capítulos anteriores, também as crianças participam deste mesmo intercâmbio, de forma natural, sem que se dêem conta disso, seja pela aproximação de seus espíritos protetores, seja pela presença de desafetos do passado ou de antigos comparsas.

Crianças obsidiadas - espíritos milenares vinculados ao passado e, muito freqüentemente, sintonizados com desafetos, hoje perseguidores/ vingadores que se aproximam para cobrar o que julgam lhes ser de direito e justiça.

A ação dessas entidades inferiores se mostra de diferentes maneiras, desde as perturbações do sono, causando pesadelos que infundem o terror noturno, tanto quanto provocando inquietação, irritação, medo, agressividade, mudança de comportamento, depressão, tristeza, complexos diversos, perturbações de aprendizado, até suscitando idéias terríveis de maldades, suicídio, etc.

No meu livro "Obsessão/Desobsessão", escrevi sobre o assunto e registro, a certa altura:

"Pequeninos seres que se nos apresentam torturados, inquietos, padecentes de enfermidades impossíveis de serem diagnosticadas, cujo choro aflito ou nervoso nos condói e impele à prece imediata em seu benefício, são muita vez obsidiados de berço. Outros se apresentam sumamente irrequietos, irritados, desde que abrem os olhos para o mundo carnal. Ao crescerem, apresentar-se-ão como crianças-problema, que a Psicologia em vão procura entender e explicar".

Diante de um quadro destes, os pais mais previdentes logo encaminham os filhos para médicos e psicólogos, cujo valor desses profissionais reconhecemos, mas que no âmbito das patologias espirituais quase nada poderão fazer.

Ao longo dos anos, temos acompanhado muitos casos de obsessão na infância, como também de assédios de espíritos perseguidores provocando reações sofridas nas pequenas vítimas de hoje. Relatamos a seguir um caso que teve um desfecho favorável.

L. D. M., menina de seis anos, compareceu com a mãe à Sociedade Espírita "Joanna de Ângelis". Esta informou que a filha era hiperativa, com um gênio muito difícil e que, inclusive, dizia não gostar da própria mãe. À noite, desde muito pequena, gritava, chorava, mas, de dia, não se lembrava de nada. Ultimamente, porém, L.D.M. passou a dizer que via junto à sua cama uma mulher muito feia, a lhe dar ordens, até mesmo falando que deveria infernizar a vida dos pais, em especial, a da mãe, pois que esta era muito má. A menina contou o fato ao pai e este à esposa. De início procuraram uma psicóloga, porém, houve pouca melhora. Em meio a vários conselhos de parentes e amigos, resolveram procurar um centro espírita, porque em certos momentos a filha parecia uma pessoa adulta nas atitudes agressivas em relação à mãe e, em outros, era carinhosa e agia como uma criança de sua idade. Ali estavam as duas buscando ajuda. Após as orientações habituais e necessárias à situação, a mãe se comprometeu a seguir o tratamento espiritual para a menina, o que realmente aconteceu, havendo, logo depois, a aquiescência e comparecimento do pai. Os nomes foram encaminhados para a reunião de desobsessão. O espírito se comunicou. Era uma mulher que dizia se vingar da mãe da criança, porque esta lhe tomara o amante, em existência anterior, e agora ainda estava com ele, como marido e pai da menina. Resolveu, então, que, para sua vingança, deveria castigar a mãe através da filha. Foi esclarecido ao espírito comunicante que a sua atuação malévola não lhe traria de volta o ex-amante, pois ele amava muito à filha e, se tomasse conhecimento do que ela estava fazendo, passaria a odiá-la. Que o melhor para ela própria seria o de atuar pelo amor, pela dedicação ao bem, que com este procedimento conquistaria o respeito e a admiração do homem a quem amava. Também lhe foi mostrada a necessidade de procurar a sua felicidade pessoal, que à sua frente se abria um caminho novo, junto a entes queridos ao seu coração, aos quais não percebia, por ter a mente fixada na idéia da vingança e no empenho de reconquistar o amor de outrora. As argumentações tocaram as fibras mais sensíveis da mulher, que ali mesmo desistiu de seus propósitos, partindo para uma nova vida ao lado de espíritos que a amavam. A partir do tratamento espiritual, a menina teve uma notável transformação e o lar foi pacificado.

Caso ocorrido em 1991.

Nem sempre, contudo, se consegue uma solução satisfatória. Nos casos mais graves, podem acontecer, associados ao processo obsesssivo, um tipo ou outro de transtorno mental, como também, enfermidades de difícil diagnóstico, súbitas mudanças de comportamento ou, ainda, lares tumultuados nos quais imperam a rivalidade, o ciúme, as rixas constantes, aversões entre familiares, enfim, conflitos e situações complexas, levando multidões de pessoas, em diferentes partes do mundo, ao desespero, ao desânimo, ao sofrimento e a reações desequilibradas.

No livro "Dramas da Obsessão", de autoria do espírito Dr. Bezerra de Menezes, psicografado por Yvonne Pereira, encontramos o relato do drama da família de Leonel, este, um obsidiado de berço, tendo igualmente uma filha também obsidiada desde a infância.

Na seqüência, ressaltamos, por oportuno, o capítulo 7 do livro de André Luiz "No Mundo Maior", no qual é relatado o dramático processo redentor de um espírito muito endividado perante as Leis Divinas.

Informa Calderaro, o nobre instrutor espiritual de André Luiz, que havia algum tempo prestava assistência a uma criança gravemente enferma e à sua mãe. Na residência em questão, André se defronta com um doloroso quadro de sofrimento de um menino de oito anos que, segundo Calderaro, "é paralítico, não fala, não anda, não chega a sentar-se, vê muito mal, quase nada ouve". Essa situação atual, porém, não expressava um castigo divino, mas uma pena severa lavrada por ele mesmo, antes do retorno ao plano carnal. Agravando a situação, estavam próximas ao doentinho duas entidades de estranho aspecto, evidenciando serem desafetos em processo de vingança.

No passado, o espírito, agora na forma infantil, detendo o poder nas mãos, decretou a morte de muitas pessoas durante uma guerra civil e, aproveitando-se do tumulto que se estabeleceu na área político-administrativa, estendeu sua ação danosa para vingar-se de desafetos pessoais, em meio ao ódio e destruição. Após a morte, padeceu por largo tempo em regiões inferiores atormentado por muitas de suas vítimas. O tempo, todavia, propiciou que várias delas lhe perdoassem, restando agora os dois espíritos que ali estavam ao seu lado e que o seguiram quando reencarnou. Entretanto, os dois vingadores também já apresentavam sinais de transformação, o que deveria ocorrer em breve.

O instrutor espiritual elucida que "o espírito não retrocede em hipótese alguma, todavia as formas de manifestação podem sofrer degenerescência, de modo a facilitar os processsos regenerativos. Todo mal e todo bem praticados na vida impõem modificações em nosso quadro representativo. ( ... ) Semeou o mal e colhe-o agora. Traçou audacioso plano de extermínio, valendo-se da autoridade que o Pai lhe conferira, concretizou o deplorável projeto e sofre-lhe as conseqüências naturais de modo a corrigir-se. Já passou a pior fase. Presentemente, já se afastou do maior número de inimigos, aproximando-se de amoroso coração materno, que o auxilia a refazer-se, ao término de longo curso de regeneração."

Devemos ter em mente que a enfermidade, as limitações físicas ou mentais, na verdade, são processos de cura para o espírito enfermo. O corpo físico é o escoadouro das energias deletérias acumuladas pelo espírito quando pratica ações criminosas, visto que estas o desarmonizam e desequilibram vibratoriamente, prejudicando em primeiro lugar a ele mesmo.

Em meio a tal situação dolorosa, o menino recebia de sua mãezinha, uma jovem senhora de menos de trinta anos, amor e dedicação constantes. André presenciou o momento em que ela o levantou cuidadosamente do leito e o abraçou "com o mais terno dos carinhos." Com ele no colo, entrou em prece, entremeada de ponderações a respeito do enfermo querido. Chorando, implorava a bênção divina para que não lhe faltassem as energias diante da luta que enfrentava. Calderaro, aproximando-se, colocou as mãos sobre os lobos frontais dela, passando a irradiar pensamentos que lhe falavam ao coração e infundiam-lhe coragem, esperança e ânimo.

Olhando o filhinho agora mais tranqüilo, a jovem mãe como que ouviu os pensamentos sublimes. "Sim, Deus não a abandonaria - meditava; dar-lhe-ia forças para cumprir ate ao fim o cometimento que tomara a ombros com a beleza do primeiro sonho e com a ventura da primeira hora. ( ... ) Serviria ao Senhor sem indagar; amaria seu filho pela eternidade; morreria, se preciso fora, para que ele vivesse."

Observando a cena, Calderaro deu por finda a tarefa de assistência daquele dia. E arrematou:

"-Examinando essa criança sofredora como enigma sem solução, alguns médicos insensatos da Terra se lembrarão da morte suave; ignoram que entre as paredes deste lar modesto, o Médico Divino, utilizando um corpo incurável e o amor, até o sacrifício, de um coração materno, restitui o equilíbrio a espíritos eternos, a fim de que sobre as ruínas do passado possam irmanar-se para gloriosos destinos". (André Luiz, No mundo maior)

O tratamento espiritual abrange alguns aspectos extremamente necessários à recuperação da criança e familiares. Quando a família aceita a orientação espírita, torna-se mais fácil alcançar bons resultados. Deve-se esclarecê-los da necessidade de se manter um ambiente o mais harmonioso possível no grupo doméstico, onde cada um se empenhe em melhorar os relacionamentos. Para tanto, é imprescindível a realização do Culto do Evangelho no Lar, pelo menos uma vez por semana. Os pais devem ensinar desde cedo os seus filhos o hábito da oração, seja em que religião for. Todavia, muitos se esquecem ou não se preocupam com esta parte da educação e formação da pessoa de bem, que é a parte da religião. Dentre os pontos da orientação espírita, destaca-se o tratamento através dos passes e a freqüência dos familiares às reuniões doutrinárias, para que, aos poucos, possam ir assimilando os princípios luminosos do Espiritismo. Se for possível, a criança deve ser encaminhada para as aulas de Evangelização Infantil.

Por outro lado, a estrutura das reuniões de desobsessão possibilita o atendimento às entidades que estejam envolvidas com o caso, sem que seja necessária a presença de qualquer um dos familiares à reunião.

A palavra final deste capítulo é de Divaldo Franco, esclarecendo quanto à questão de processos obsessivos na infância, conforme registra o livro "Palavras de Luz". Ele afirma:

"A criança, portadora de uma problemática de tal natureza (a obsessão), deve receber passes na casa espírita em dia próprio, usar água fluidificada. Devem ser orientados os seus pais para melhor saberem conduzir-se junto à criança e como conduzi-la, a fim de minimizar-lhe a dor e libertá-la desta aflição que procede de vidas passadas.

Nunca é conveniente levar a criança a assistir reunião espírita de natureza mediúnica, conforme prescreve "O Livro dos Médiuns". Kardec aborda a questão, elucidando que crianças não devem participar de experiências práticas, diga-se, mediúnicas, da Doutrina Espírita, pois que, para os Espíritos se comunicarem, não se faz necessária a presença do seu paciente". (Palavras de Luz, Divaldo Franco)

Suely C. Shubert