8ª.AULA - 06/04/05
LEI DE CONSERVAÇÃO


A) Instinto de Conservação — Meios de Conservação - Instinto de Conservação

O instinto de conservação é também uma lei da natureza, pois a vida no corpo físico é necessária ao aperfeiçoamento dos seres vivos; sem este instinto, não suportariam as dificuldades terrenas, imprescindíveis à sua evolução. Todos os seres vivos o possuem, qualquer que seja o grau de inteligência; nuns é puramente mecânico e noutros é racional (LÊ, 702).

Portanto, partindo-se da premissa de ser o instinto de conservação inerente a todos os seres vivos, deduz-se ser ele a base do direito de viver, o primeiro de todos os direitos naturais dos homens.

Meios de Conservação

A providência divina jamais deixa de proporcionar ao homem os meios de sua subsistência, uma vez que a própria natureza é pródiga no que diz respeito às necessidades de conservação da vida material. Contudo, embora a terra ofereça condições para tal o abuso, a negligência e o egoísmo do homem agridem de tal forma o meio ambiente, acarretando prejuízos para si próprio e à coletividade. Conseqüentemente, o próprio homem é responsável quando há escassez de recursos, ao contrariar a lei divina que provê os meios de conservação da vida.

Em conformidade com os desígnios de Deus, a terra produz e sempre produzirá o necessário para a manutenção de todos; mas é preciso que o homem trabalhe corretamente, sem abusar dos recursos que a natureza lhe oferece. Se ele não encontra à sua volta os meios necessários à sua subsistência, é por falta de compreensão. Deus não podia dar ao homem a necessidade de viver sem lhe dar também os meios. È por isso que faz a terra produzir, de maneira a fornecer o neces­sário a todos os seus habitantes, pois só o necessário é útil; o supérfluo jamais o é (LÊ, 704).

O solo é a fonte primeira de onde se originam todos os outros meios de subsistência, entendendo-se que tais meios são apenas transformações dos produtos do solo. Deste modo, deve-se entender por bens da terra aqueles bens que o homem pode usufruir em sua vida. Pela transformação de tais produtos, obtém o necessário para o seu conforto e do seu semelhante; usufrui de melhor qualidade de vida, que irá lhe permitir condições adequadas para desenvolver-se intelectualmente; nesta gradação, o homem reconhecerá não só seus próprios deveres, mas principalmente os direitos do seu próximo; tal encadeamento progressivo redundará na sua elevação moral.

Contudo, é preciso ressaltar que, para uns faltam meios de subsistência, enquanto que para outros sobram; tal situação é fruto não só da ganância e egoísmo dos homens como também da indolência de muitas criaturas, que se entregam ao desânimo ante os obstáculos naturais do seu ambiente. Compete a cada criatura viver em consonância com os desígnios de Deus, enfrentando as adversidades com fé, perseverança e trabalho. Buscai e achareis; estas palavras não querem dizer que seja suficiente olhar para a terra afim de encontrar o que se deseja, mas que é necessário trabalhar com ardor e perseverança... (LÊ, 707).

O próprio avanço da civilização multiplica as necessidades da vida, mas também multiplica as fontes de trabalho e os meios de subsistência, proporcionando à humanidade condições para seu desenvolvimento intelectual e moral. Mas, levado ainda pelas suas imperfeições, o homem procura a vida oposta àquela que a natureza lhe proporciona: o desejo de acumular sempre o que lhe é supérfluo, o que contraria frontalmente as leis naturais, pois todos têm seu lugar ao sol, desde que não se apropriem do que pertence ao próximo. É neste sentido que não se deve responsabilizar a natureza quando há escassez de recursos de subsistência, mas sim como fatores decorrentes da ambição e egoísmo das próprias criaturas.

Contudo, existem situações em que os meios de subsistência não dependem absolutamente da vontade do homem, quando submetido a provações e sofrimentos. É o caso das provas muitas vezes difíceis, onde o mérito maior está na submissão à vontade divina, caso sua inteligência não lhe permita contornar tais dificuldades. Por isso. aqueles que, em determinadas situações críticas, se vêem obrigados a sacrificar o semelhante para saciar a fome, não têm atenuantes e muito menos uma justificativa imposta pelo instinto de conservação; o mérito está antes em sofrer todas as vicissitudes terrenas com coragem e abnegação.

Quanto aos mundos mais elevados, os seres que os habitam também necessitam de alimentação, mas as substâncias que compõem tais alimentos são relativos à natureza de cada mundo e respectivos habitantes. Deste modo, a Lei de Conservação intui a todas as criaturas o conhecimento de que a vida é uma dádiva divina e que seu dever, acima de tudo, é preservá-la. Portanto, não lhe cabe o direito de menosprezar ou eliminar, nem a vida de seu semelhante, nem a sua própria. Bibliografia: LÊ, 702 a 710

B) Necessário e Supérfluo — Privações Voluntárias — Mortificações

Necessário e Supérfluo

Todo homem ponderado, ciente de seus deveres para com o próximo, identifica facilmente, através da sua intuição, o limite entre o que lhe é necessário à sua subsistência, e o que lhe é supérfluo; a própria natureza encarrega-se de lhe prover o necessário, através do seu trabalho. Contudo, muitos chegam a reconhecer este limite somente após dolorosas experiências; e se existem criaturas que não se contentam com o que lhes bastam, é porque são insaciáveis.

Quando o homem ultrapassa o limite de suas necessidades, desejando os excessos, sofre as consequências de seus atos egoístas, pelo imperativo da lei de ação e reação. As doenças, a decadência, a própria morte que são a consequência do abuso, são também a punição da transgressão da lei de Deus (LÊ, 714a). A ambição desmedida altera a constituição orgânica, propicia os vícios, cria necessidades fictícias, muitas vezes difíceis de serem satisfeitas, levando os homens a quedas morais irreversíveis.

Aqueles que se apoderam avidamente de bens terrenos, transgridem as leis divinas e portanto terão que responder pelas privações que houverem causado ao seu próximo. Os que vivem à custa das privações alheias exploram os benefícios da civilização em proveito próprio; não têm de civilizados mais do que o verniz, como há pessoas que não possuem da religião mais do que a aparência (LÊ, 717).

Privações Voluntárias

A Lei de Conservação obriga o homem a prover as necessidades do corpo, porque sem força e saúde tornar-se-ia impossível o seu trabalho. Portanto, não se pode censurá-lo quando procura o seu bem-estar, pois procurar seu conforto é uma conduta plenamente natural. Deus só proíbe o abuso quando se configura em uma transgressão à Lei de Conservação, quando se conquista algo à expensa de alguém ou que venha a debilitar suas forças morais e físicas.

Há privações voluntárias como, por exemplo, dos prazeres inúteis, que nada acrescentam ao progresso moral e intelectual; tais privações tem o seu valor perante Deus porque levam o homem ao desapego da matéria e lhe elevam o Espírito; do mesmo modo, há mérito também no ato de abster-se do necessário para dar aos que nada tem.

Existem pessoas que, de acordo com a religião a que pertencem, privam-se voluntariamente dos prazeres da vida; desde a Antiguidade, povos mortificam-se no ascetismo, abstêm-se de certos alimentos, mutilam-se ou torturam o corpo, na certeza de que tais sacrifícios os ajudariam a elevar-se ante Deus. Mas, é uma atitude desarrazoada, qualquer que seja o seu pretexto ou disfarce, pois que prejudica a quem a pratica. Submeter-se a privações no trabalho pelos outros é a verdadeira mortificação, de acordo com a caridade cristã (LÊ, 721).

Alguns legisladores houveram por bem proibir o consumo de certos alimentos, objetivando certamente a uma determinada finalidade e, para dar maior credibilidade à suas leis, apresentaram-nas como advindas de Deus. Entretanto, faz-se necessário esclarecer que ao homem é permitido alimentar-se de tudo o que não lhe prejudique a saúde, mesmo no caso de alimentação animal; devido à sua constituição física, onde a carne nutre a carne, é dado ao homem a liberdade de nutrir-se ainda da alimentação animal, segundo o exige sua organização, a fim de conservar suas energias e sua saúde, para que possa cumprir a Lei do Trabalho (LÊ, 723).

Mortificações

O mesmo ocorre em relação às mutilações operadas no corpo das criaturas ou dos animais; as leis de Deus não comportam o que seja inútil e nocivo. O que eleva a alma ao Criador são os sofrimentos naturais que visam ao bem-estar do próximo. Ao invés de fustigarem inutilmente seus corpos, por que não trabalham, antes, em favor dos seus semelhantes? Que visitem o indigente, consolem o que chora, trabalhem pelo que está enfermo, sofram privações para o alívio dos infelizes, e então sua vida será útil e agradável a Deus (LÊ, 726).

Sintetizando a orientação da Doutrina Espírita em relação à Lei de Conservação, conclui-se que: O instinto de conservação foi dado a todos os seres contra os perigos e os sofrimentos (...) E os Espíritos orientam ainda a todos aqueles que desejam viver consoante as leis de Deus: Fustigai o vosso Espírito e não o vosso corpo, mortificai o vosso orgulho, sufocai o vosso egoísmo (...) e fareis mais pelo vosso adiantamento do que por meio de rigores que não mais pertencem a este século (LÊ, 727).Bibliografia:LÊ, 715 a 727

C) Provas Voluntárias — Verdadeiro Cilício

Torturar e martirizar, voluntariamente, o vosso corpo é contrariar a lei de Deus que vos dá os meios de o sustentar e fortalecer, enfraquecê-lo sem necessidade é um verdadeiro suicídio. Usai, mas não abuseis, tal a lei (ESE, Cap. V, 26).

Provas Voluntárias

No que diz respeito às provas, poder-se-ia questionar se seria lícito, perante as leis divinas, as criaturas procurarem amenizar seus sofrimentos. Esta questão assemelha-se àquela em que se indaga se é permitido ao que se afoga, procurar salvar-se; ao que se feriu em um espinho, retirá-lo e ao que está doente, procurar ajuda médica. As provas a que os Espíritos encarnados estão submetidos têm por objetivo exercitar a inteligência, a paciência e a resignação. Isto porque normalmente os Espíritos encarnam em situações difíceis justamente para serem obrigados a procurar os meios de superar seus limites e vencer as dificuldades inerentes à condição humana.

O que o homem jamais deve fazer é entregar-se à negligência, ao desânimo e muito menos revoltar-se contra o mundo em que vive. A Terra, embora morada de expiação e dor, prima pelo equilíbrio e harmonia que regem suas leis naturais; e em que pese os males e sofrimentos dos seres que a habitam, prossegue favorecendo a vida em sua renovação contínua, impulsionando o progresso e sustentando as esperanças da humanidade. Portanto, está no próprio homem compreender e aceitar os desígnios de Deus, pois o mérito consiste em suportar sem lamentação as consequências dos males que não se podem evitar, em perseverar na luta, em não se desesperar se não for bem sucedido... (ESE, Cap. V, item 26).

Em decorrência da consolação de Jesus contida no Sermão da Montanha — Bem-aventurados os aflitos — tem-se o seguinte questionamento: será meritório, então, procurar agravar as próprias aflições através de sofrimentos voluntários, para fazer jus a esta bem-aventurança? Se o objetivo é apenas satisfazer o egoísmo ou atender a exigências fanáticas, levando as pessoas a se recolherem em retiros, macerando seus corpos e impondo-se sofrimentos sem nenhuma finalidade útil ou nobre, não há mérito algum. Torturar, martirizar o corpo é atentatório às leis de Deus, e aqueles que enfraquecem seus organismos dessa maneira estão fadados a fracassarem em suas provas terrenas.

Há mérito, porém, perante Deus quando os sofrimentos e as privações voluntárias têm por objetivo o bem do próximo, porque é a caridade pelo sacrifício (ESE, Cap. V, 26). Assim, a bem-aventurança indicada por Jesus está condicionada não só ao sofrimento resignado, sem revolta, mas acima de tudo àquele sofrimento que se impõe para aliviar as dores do próximo. Os aflitos a que se refere Jesus são, portanto, os humildes, os arrependidos de seus erros e decididos a se regenerarem pela reforma íntima e pelo trabalho voltado para o amor e a caridade.

O Verdadeiro Cilício ( Cilício: pequena túnica, cinto ou cordão, de crina ou de lã áspera, ou de arame fino eriçado de pontas que se traz sobre a pele para mortificação ou penitência. Por extensão, tormento, martírio ou sacrifício voluntário).

O verdadeiro cilício é aquele que se pratica em favor do próximo, ao colocar seus próprios interesses e comodidades em favor do seu semelhante, num gesto de desprendimento e abnegação. Quando o homem impõe-se a si mesmo sofrimentos de qualquer espécie com o objetivo de aliviar seu próximo; quando suporta frio e fome para aquecer e alimentar alguém necessitado; quando deixa seus aposentos para levar consolação a um lar aflito, quando vela à cabeceira de um doente, tudo isso representa o verdadeiro cilício abençoado por Deus.

Vós, enfim, que usais vossa saúde na prática de boas obras, eis vosso cilício, verdadeiro cilicio de bênçãos, porque as alegrias do mundo não secaram vosso coração (ESE, Cap. V, item 26). Pelo fato de o homem estar consciente de que os sofrimentos são, muitas vezes, consequências de erros praticados em vidas passadas, não deve ver nisso motivo para não se condoer da dor alheia e não mostrar disposição para auxiliar o próximo. Pelo contrário, deve sempre intuir quais os meios que Deus lhe colocou às mãos para suavizar o sofrimento do seu irmão, para consolá-lo e dar-lhe o amparo moral e material de que necessita.

Assim, o verdadeiro cilício consiste no sacrifício que tem por finalidade o progresso espiritual; mortificar o Espírito e não o corpo, significa combater o orgulho, aceitar as humilhações sem revolta, sufocando o amor-próprio eivado de orgulho. Ai tendes o verdadeiro cilício, cujas feridas vos serão contadas, porque elas atestarão vossa coragem e submissão à vontade de Deus (ESE, Cap. V, item 6).
Bibliografia: ESE, Cap. V, item 26.


QUESTIONÁRIO

a) instinto de conservação - meios de conservação:

1 ) Como a Doutrina Espírita aborda o instinto de conservação?

2 ) O que se deve entender por bens da terra?

3 ) Por que faltam meios de subsistência para alguns, mesmo em meio à abundância?

b ) necessário e supérfluo — privações voluntárias e mortifçações:

1) Como pode o homem conhecer o limite do que lhe é necessário?

2) Pode- se censurar aqueles que procuram o conforto material e o bem-estar?

3) Existem privações voluntárias meritórias perante Deus? Discorra.

C) Provas voluntárias — O verdadeiro cilício:

1) É lícíto ao homem amenizar suas próprias provas?

2) Como explicar a afirmação de Jesus : Bem aventurados os aflitos?

3) Em que consiste o verdadeiro cilício?