XI - GÊMEOS

Por volta do sétimo mês de gravidez, Lúcia já estava com uma imensa barriga e todos indagavam se eu não teria um irmãozinho. Gêmeos! Um sonho para muitas mães e um pesadelo para outras. Preocupada, mamãe procurou a sábia orientação do Dr. Marcelo.

- Não - respondeu ele - trata-se de um só bebê, fique tranqüila! Muitas mães, na primeira gravidez, por não estarem acostumadas com o volume uterino, nem com a dilatação do ventre, acreditam que estão esperando gêmeos.

Fiquei mais sossegado. Afinal, eu não poderia ter passado tanto tempo acompanhado e não ter percebido. Surgiu-me, no entanto, uma dúvida, que deve ter sido a mesma de mamãe. Por que o Plano Superior envia, às vezes, duas ou mais crianças, ao invés de uma só por gestação?

Começamos a refletir juntos e Lúcia adormeceu.

Deixei, então, a sua companhia e aproximei-me de meu querido mentor, que me explicou com paciência e detalhismo o que eu desejava saber.

Há várias hipóteses para a concepção e o nascimento de gêmeos. Alguns casais são reticentes e não desejam ter filhos. Quando resolvem, estipulam um número: "no máximo, um" . Outros, porém, já tendo dois, fixam rigidamente: "agora, só mais um". Havendo uma programação para o casal receber como filhos um determinado número de Espíritos, o Departamento de Reencarnação de uma cidade espiritual resolve interferir.

No instante da concepção, através dos médicos da Espiritualidade, espermatozóides são colocados em óvulos. Assim, garante-se a reencarnação - tão necessária - dessas entidades.

Por outro lado, há casais que estipulam um número flexível de filhos e não se importam com a vinda de dois ou três, por exemplo. Talvez, nesse caso, até o quarto ou quinto seriam bem-vindos. Nesse caso, a Espiritualidade Superior, aproveitando essa disponibilidade, envia mais de um Espírito para o reencarne.

Ainda outras hipóteses existem, do ponto de vista daqueles que irão reencarnar. Há entidades que são inimigas figadais de longa jornada. Avaliações das Coordenadorias Especializadas da colônia espiritual indicam que uma das melhores maneiras de buscar sanar essa rivalidade profunda entre os dois seres é colocando-os juntos sob o mesmo teto, dentro da mesma família. Surgem, pois, os gêmeos.

A vivência desses gêmeos (antes inimigos), no útero materno, tão próximos e vivenciando as mesmas emoções, preparando-se para amar a mesma mãe e o mesmo pai, aprendendo a encarar o mundo do mesmo modo e, acima de tudo, partilhando o mesmo alimento e respirando o mesmo ar, serve-lhes de base sólida para um regenerar promissor. Quando reencarnados, eles saberão suportar juntos as provas que lhes estão reservadas e poderão, pela boa utilização do livre-arbítrio, vencer barreiras e ampliar horizontes. Não é à toa que gêmeos, de regra, têm bom relacionamento e por vezes os mesmos gostos. A própria semelhança física faz com que sejam cúmplices nos caminhos que a vida lhes apresenta. A proximidade que não tinham no seu passado, quando foram adversários, são obrigados a vivenciar no presente e no futuro. As chances de recuperação são imensas.

Esse tipo de reencarne pode ocorrer de forma dupla (gêmeos), tríplice (trigêmeos) ou em maior número, respeitada a capacidade física da mãe.

Assim, algumas vezes o surgimento de gêmeos em famílias acontece por intervenção do determinismo do Alto, que impulsa ao reencarne vários filhos ao mesmo tempo, mesmo que o casal não queira.

Outras vezes, a flexibilidade e o preparo dos pais na senda do amor permite à Espiritualidade Superior determinar a reencarnação de mais de uma entidade ao mesmo tempo, pois essa decisão está de acordo com o livre-arbítrio do casal de receber quantos filhos puder.

Em uma terceira hipótese, atende-se ao objetivo de reconciliação entre inimigos do pretérito, através da união íntima proporcionada desde a convivência no útero materno e, depois, por vários anos da vida, o que é extremamente valioso.

Muitos interesses são atendidos no momento em que ocorre a concepção de uma criança. A regra, no entanto, é que os gêmeos devem sempre ser bem-vindos pois existe uma razão divina por trás de sua chegada. Logicamente, todo ser que reencarna possui a mão de Deus abençoando-o. No caso de gestações múltiplas existe uma particularidade nesse relacionamento, a ser levada em consideração no momento em que os pais recebem a notícia de que receberão mais de um filho ao mesmo tempo. Eu faço uma sugestão: basta redobrar a dose de amor.

Tive uma gestação tranqüila. Meus pais me amavam muito e a família aguardava ansiosa a minha retumbante chegada. Seria eu o primeiro filho de Adamastor e Lúcia.

Apesar de todo esse envolvimento positivo, eu tinha por missão levar ao coração endurecido de papai um pouco de luz, despertando-lhe o amor a Deus. Deveria, também, ajudar a consolidar a união de Lúcia e Adamastor, vovó Emília e vovó Estela, além de representar ao restante da família um ponto de apoio espiritual.

Outros filhos, meus pais somente iriam ter quando eu partisse. E, por livre opção, meu desencarne do mundo físico seria triste e precipitado, no entender dos encarnados. Não por acaso, pois terminou servindo para abrandar a rigidez de Adamastor que se recusava a ter mais de um filho. Ele, com muito custo, permitiu o meu nascimento, já que, por razões egoísticas, preferia viver só com mamãe. A minha vinda abrandou-lhe o coração e a minha partida, de vez, quebrou-lhe as resistências. Eu representei para ele, ao longo de dez anos, amor e amizade, sentimentos que jamais tinha conhecido integralmente.

Filhos servem para dar força aos pais. Ensinam-lhes que os sentimentos não têm um limite. Por um filho os pais são capazes de superar o amor próprio e de repartir a vida e os sonhos, são obrigados a dividir o teto e compartilhar a mesa. Por uma criança, os pais incentivam-se a lutar ainda mais por seus ideais e, em verdade, renovam as suas esperanças.

Quando deixei o mundo material, Adamastor já havia compreendido que a vida de um casal sem filhos não é plena de amor e satisfação. Por tal razão, eles chegaram a gerar outras crianças e também a adotar algumas. Adamastor desprendeu-se mais dos bens materiais e passou a ver em Deus a verdadeira força que move a vida.

Durante dez anos de convívio, conseguimos viver juntos uma amizade tão forte que papai, quando me fui, não se revoltou contra Deus. Ao contrário, pediu que me abençoasse quando ao céu eu chegasse.

Não cheguei a ser um missionário. Tive meus erros, apesar de cometidos na fase infantil, quando a responsabilidade do encarnado é pequena. Ao deixar o plano físico com dez anos de idade, colecionei poucos desvios e alcancei a felicidade de retornar, com sucesso, à minha querida Alvorada Nova.

A vida verdadeira é a espiritual. Quando parti, Lúcia chorou de saudade, mas jamais cansou de dizer que fui abençoado, pois iria para um lugar de muita luz e tinha terminado a minha jornada na Crosta porque tive merecimento para tanto. Ela não fugiu à realidade, pois todos os jovens que prematuramente - no dizer dos encarnados - deixam a veste corpórea ingressam, sorridentes, no plano espiritual.

Há inúmeras razões, sempre elevadas, para determinar o desencarne de uma criança ou de um adolescente. Mas, no plano espiritual, essa interrupção é sempre vista com otimismo. Traz àquele que desencarna um imenso apoio por parte das equipes socorristas de uma cidade espiritual. Permite - na maioria das vezes - um saldo positivo ao Espírito que retorna. É uma das provas mais difíceis que os pais costumam enfrentar e, se forem vencidas com resignação, podem proporcionar imenso progresso ao casal e também aos familiares. Enfim, bons frutos advém de desencarnes prematuros, embora a maioria dos encarnados ainda não entenda assim.

Quando deixei meus pais, percebi que Adamastor conseguiu aprimorar a sua reforma íntima e renovou-se interiormente. Lúcia, por seu turno, consolidou o imenso amor que já lhe era inerente e aumentou a sua força e a sua fé. Vovó Emília reiterou a si mesma os valores espíritas que sempre nortearam o seu caminho, enquanto vovó Estela, um pouco perturbada, deu um basta a tanto desperdício com suas aventuras materialistas e passou a refletir sobre a vida como nunca fizera antes. Inúmeros outros amigos e parentes, que sofreram junto à minha família, aprenderam valores que desconheciam.

A Sabedoria Divina supera, sem qualquer dúvida, o nosso esclarecimento e o entendimento que temos sobre o mundo. Muitas lições nos ensinam que devemos confiar a Deus o nosso destino, sem preocupação extremada com o dia de amanhã. Certamente, todos devem trabalhar para construir um futuro promissor, seja no campo material, seja no tocante aos valores espirituais.

O Plano Superior conhece bem os passos adequados ao nosso caminhar. Sofrimentos, enquanto estamos no plano material, devem ser bem-vindos, pois representam o caminho para a felicidade futura que tanto almejamos. De que adianta uma vida material repleta de efêmera e mascarada felicidade, com alegrias que contentam o corpo, mas infelicitam o espírito na sua essência, se depois haveremos de arcar com os débitos? Imaginemos a vida no plano físico como um estágio para conseguirmos preparo suficiente que nos habilite a ingressar na vida definitiva com o coração purificado.

Os filhos que Deus envia e eventualmente leve embora em tenra idade são dádivas, oportunidades de regeneração, provas que os pais devem suportar, resignados. Acatando com humildade a Sabedoria Divina, cada ser humano não se revoltará contra a Espiritualidade Superior e não carreará para si maiores dívidas. Conformando-se com a transitoriedade da vida física, todos saberão da importância de bem viver cada prova, por menor que ela seja, além de assimilar com tranqüilidade cada expiação.

O segredo de um reinício promissor no plano material é dar a mesma atenção à gestação que os pais costumam dedicar ao filho após o nascimento. Lúcia, Adamastor e eu formávamos uma família desde os primeiros minutos de minha concepção, porque o amor nos unia. Nada poderia ser mais belo. Nenhum sentimento poderia ser mais pleno. Eu estava feliz. Assim foram os meus nove meses de vida uterina, a certeza de outros dez anos de maravilhosa convivência com meus amorosos pais.

Caio Mário