CASAMENTO ACIDENTAL

Ocorre entre pessoas que não têm comprometimento espiritual anterior, assim como não há nenhuma programação entre elas para a vida presente. Caracteriza-se por ser imprevisto, fortuito, casual...

Existem vários fatores que influenciam e determinam a ocorrência de um casamento acidental. Dentre eles podemos destacar:

- Atração Momentânea

- Interesse

- Fuga do Lar

- União Forçada

- Vaidade

Atração Momentânea

São aqueles casos em que predomina o sensualismo.

Motivado pela beleza e charme que a moça irradia, o rapaz não consegue ver além dos atributos físicos e acredita que encontrou o amor da sua vida ... E se sente feliz por esse amor ter corpo voluptuoso e pele macia.

A moça, dentro dessa mesma esfera de emoções, nada enxerga além da atração e sedução que o corpo viril do namorado exerce sobre ela. Os doces olhos em contraste com a agilidade dos músculos fortes lhe propiciam ao mesmo tempo a sensação de segurança física e emocional.

Com o passar do tempo, a beleza, a pele macia, a virilidade e os músculos fortes perdem o seu viço ... E as amarguras da vida se encarregam de substituir o charme e a doçura dos olhos pela rispidez de atitudes e dureza no olhar.

Interesse

Estes casamentos, literalmente, fizeram história e ocorrem ainda hoje, escrevendo no presente as histórias a serem contadas em dias futuros.

A diferença é que antigamente eles eram acertados em um acordo de cavalheiros - tendo como protagonistas os pais dos noivos -, objetivando preservar ou aumentar as posses das famílias, além de fortalecer alianças políticas.

Atualmente, são os próprios jovens que procuram estabilidade financeira em detrimento dos valores afetivos. É o famoso "golpe do baú". Nem sempre dá certo.

Corria o ano de 1960. Em progressista cidade do Estado de Mato Grosso, hoje Mato Grosso do Sul, certo rapaz começou a namorar uma moça muito rica. Ela estava no esplendor das vinte primaveras e ele desfrutava do vigor que os vinte cinco anos podem proporcionar.

Enquanto os dias passavam, céleres, a convivência dos dois namorados foi se acentuando. Noivaram e marcaram a data do casamento.

Um tanto quanto gaiato, o rapaz começou comentar com amigos e parentes que em breve estaria se casando, mas com as vacas da sua noiva. Ele pretendia, de fato,"amansar" a vida. Dizia que o afeto era apenas um detalhe no conjunto das coisas ... E esse conjunto de coisas era muito abrangente! Dinheiro, gado e terras não faltavam à família da sua escolhida.

A infeliz brincadeira, que trazia na sua zombaria um fundo de verdade, tanto se propagou pela cidade, que acabou chegando aos ouvidos da família da moça.

Decepção, tristeza e sofrimento. Os pais da jovem, desiludidos, sugeriram que ela anulasse o noivado e esquecesse o rapaz. Mas ela, caprichosa, queria cerimônia e festa de casamento. Pediu ao pai que acontecimento tão importante fosse realizado em uma das fazendas da família. Seu noivo iria se casar, SIM, mas com as vacas ...

A festa primava pelo requinte. O decorador e os serviços de bufê haviam sido contratados na capital paulista. Os convidados, em conversas amenas, degustavam iguarias finas e bebidas importadas, enquanto aguardavam a solenidade. Momentos antes do cerimonial civil-religioso, a noiva, sempre gentil e graciosa, levou seu noivo até o curral e informou-lhe que jamais se casariam. Mas as vacas estavam esperando por ele ... Atônito e perturbado, o rapaz e sua família se retiraram da festa. E os convidados, em pequenos grupos, iam até o curral onde se deparavam, perplexos, com meia-dúzia de vacas enfeitadas com véu e grinalda ...

Profundamente envergonhados, o moço e sua família se mudaram para outro Estado. Ela, contudo, continua morando onde sempre morou, razão pela qual omitimos o nome da cidade. E continua rica ... muito rica!

Se o "golpe do baú" pretendido sobre a jovem mato-grossense tivesse dado certo, é de se esperar que teríamos um divórcio a mais e uma fortuna a menos ...

Fuga do lar

Problemas domésticos podem estimular qualquer jovem à fuga do lar e induzi-lo a um casamento acidental.

É verdade que alguns jovens são inconseqüentes, de comportamento difícil. Primam pela irresponsabilidade tanto na vida acadêmica, social e profissional, quanto nos envolvimentos afetivos.

Mas é verdade também que muitos pais, de caráter duvidoso, temperamento irascível ou índole má (eles não acreditam ou não admitem que sejam assim) transformam em verdadeiro inferno doméstico a vida dos filhos.

Acuado por agressões verbais ou físicas totalmente injustificáveis e insuportáveis e sem possibilidade de se auto-sustentar, o moço ou a moça enxerga, no casamento, a única possibilidade de se libertar do guante doméstico.

Nessa desordem emocional em que vivem, tanto ela quanto ele, vislumbram "a porta libertadora" na primeira pessoa que lhes dê algum afeto, mesmo porque - imaginam - nada poderá ser pior do que a convivência na casa dos pais. E fazem todo o possível para concretizar a vida a dois.

Pode dar certo ...

União forçada

Era muito comum, até a década de setenta do século XX, o rapaz ser forçado a um casamento indesejável, como conseqüência de gravidez fortuita por ele provocada.

Não havia mais opções. Os tempos eram outros. Caso se recusasse às responsabilidades esponsalícias, poderia receber represálias que muitas vezes culminavam com a emasculação ou perda da própria vida. Era, literalmente, forçado a se casar!

Ainda hoje, entretanto, o jovem pode ser forçado ao matrimônio inconseqüente, mas dentro de outra órbita de entendimento.

Os tempos mudaram, e muito. Depois da revolução dos costumes ocorrida entre as décadas de sessenta e setenta do século citado - onde se inclui a revolução sexual- a mulher conquistou uma autonomia jamais sonhada.

Com ampla liberdade intelectomoral, ela foi incluída no mercado de trabalho, o que lhe garante total independência financeira. Por conseqüência, a gravidez fora do casamento deixa de ser problema para a mulher e tampouco causa constrangimento ou "vergonha" para a sua família.

A mulher não precisa estar casada, para criar e educar seu filho, e essa situação não lhe acrescenta qualquer mancha ao caráter. Então, uma gravidez acidental, na atualidade, não é motivo para que contraia matrimônio com um homem por quem não nutre afeto suficiente para uma vida a dois.

Contudo, muitas vezes a moça é forçada pelo pai da criança que a pressiona emocionalmente, alegando a importância da figura paterna junto ao desenvolvimento do filho. E às vezes a convence ...

Por mais estranho que pareça, as uniões forçadas ainda existem. Resultam, na maioria das vezes, em casamentos infelizes ou separações traumáticas.

Vaidade

Na atualidade, as pessoas solteiras estão totalmente integradas no meio familiar e social sem qualquer preconceito.

Em razão disso, podem vivenciar situações de amizade ou afeto que se mesclam com o relacionamento sexual sem qualquer compromisso e são plenamente aceitas.

Contudo, é interessante notar que tanto o homem quanto a mulher podem se casar simplesmente por vaidade.

Como é complexo o psiquismo humano! Algumas pessoas experimentam uma necessidade quase incontrolável de se casar - já que os seus amigos estão casados - para sentirem-se de bem com a vida. Querem ter alguém ao lado, não importa se de papel passado, para mostrar aos outros ... e para terem a sensação de que estão completas!

E se casam com a primeira pessoa que aparece!

Existem também aquelas situações - de ocorrência mais comum com as moças - em que a vaidade fica manchada pelo despeito.

Depois de um longo namoro sem êxito, os jovens se separam e o rapaz estabelece um novo relacionamento afetivo com outra moça. Após certo tempo, resolve casar-se e marca a data do matrimônio.

A ex-namorada, ferida no seu amor próprio (sabe-se lá por quê), acha um jeito de se casar antes ... só para não "ficar por baixo"!

E se casa com o primeiro homem que surge no horizonte!

Também, nesses casos, pode-se esperar casamentos atormentados ou separações traumáticas.

Os casamentos acidentais, evidentemente, não estão programados, mas, quando ocorrem, raramente são marcados pela indiferença. Quase sempre criam vínculos espirituais positivos ou negativos entre os cônjuges.

Tanto o amor pode resplandecer em demonstrações de paciência, renúncia e perdão quanto o ódio se fortalecer na ofensa, na mágoa e nos maus-tratos recíprocos.

Esta última situação, entretanto, exigirá novo encontro do casal em futura encarnação, que não será acidental porque já existem vínculos estabelecidos na atual vida a dois.

Nessa nova jornada terrena, deverão reajustar-se, com o afeto suplantando o ressentimento.

Pedro A. Bonilha