CAPÍTULO XIX
O ESPÍRITA INCONFORMADO

Cada vez mais, os nossos irmãos encarnados estão se familiarizando com as narrativas a respeito da vida dos espíritos que já deixaram o corpo.

Deste outro lado, são inúmeras as colônias, são incontáveis os hospitais, as equipes de resgate encarregadas de socorrer irmãos que sofrem nas regiões umbralinas. Multiplicam-se às centenas. O número de dimensões espirituais que se sucedem são inimagináveis, o auxílio nosso a desencarnados nas atividades de intercâmbio mediúnico ocorre de maneira ininterrupta. Daí, porque as obras espíritas da atualidade guardam uma certa semelhança. Resgates, excursões, dramas - os mais variados -, auxílio em desencarnações ... acontecem o tempo todo. A única diferença é que cada espírito desencarnado, que recebe a incumbência de enviar essas informações aos encarnados, fá-lo-á de acordo com sua percepção pessoal, narrará os fatos pelo ângulo de sua própria visão, considerando também a maior ou a menor percepção do médium que põe no papel o que estamos dizendo.

Creio que, por muito tempo, estas informações serão úteis aos nossos irmãos no corpo, até porque muitas vivências aqui também se afiguram como novidade para muitos de nós. Apenas para os irmãos entenderem quanto ainda o Plano Espiritual é desconhecido, existem determinadas regiões umbralinas que não se encontram exatamente no espaço dimensional do Umbral. Tudo é uma questão de faixa vibratória. É como se um Umbral estivesse dentro de outro, sem que a realidade de um interferisse na realidade de outro. Sou ignorante neste assunto, mas acho que é algo parecido com aquilo que chamam de universos paralelos.

Aproveitando o ensejo, é válido explicar - para muitos é desnecessário - que os espíritos em geral atuam na região ou no espaço espiritual correspondente ao lugar onde estavam reencarnados. Por exemplo, apesar de não ser regra obrigatória, eu e muitos benfeitores do nosso Plano formamos uma grande equipe de seareiros que atua, em geral, no interior do Estado de São Paulo e em parte de Minas Gerais.

Esta grande equipe se subdivide e temos os grupos menores atuando em determinadas cidades destas regiões.

Formamos, assim, grupos afins que trabalham para o bem comum. Com permissão de meus superiores, tenho procurado ser útil no espaço espiritual que corresponde à pequena cidade onde passei a maior parte da minha existência física e na cidade vizinha, onde reside o médium que me serve de instrumento. Isto não significa que, vez ou outra, eu não possa estar presente em outras localidades. Atuando de maneira mais presente nesta região, tenho oportunidade de trabalhar com amigos que conheci quando estava no corpo e outros que vim a conhecer depois da desencarnação. Entre os muitos, gostaria de destacar o Sr. Joaninho, D. Luíza, que militaram comigo na Doutrina Espírita, enquanto estava reencarnada; o Sr. Atílio, um homenzarrão de quase dois metros, que, há décadas - quando grande parte das pessoas nem sabia o que era espírito -, ele já era um doutrinador destemido, que, não raras vezes, no meio do dia, fechava seu pequeno comércio para atender a casos de obsessão; o Sr. Antônio De Luca - quando encarnado, possuía várias mediunidades, inclusive a de efeitos físicos -, dedicado trabalhador da seara espírita, vencia com sua esposa oito quilômetros a pé, três vezes por semana, para chegar ao centro, já que morava no sítio; José do Gás, homem bondoso, que se caracterizou, enquanto encarnado, por sua bondade e pelo amor que nutria às crianças que freqüentavam o centro que ele dirigia. Posteriormente, conheci outras almas nobres, entre elas, o amigo José de Moraes, que tem uma atuação importante em várias regiões do Estado de São Paulo; o Frei Arnaldo, que trabalha nas reuniões de desobsessão; o Sr. Antônio Carlos Tonini, o Sr. José Antônio, o Dr. Mariano, entre tantos outros ...

Vez por outra, recebemos mesmo que, rapidamente, para nos passar importantes orientações, os venerandos espíritos de Bezerra, Eurípedes, Caibar Schutel, entre outros.

Naturalmente, se eu estivesse em outro Estado do Brasil, citaria o nome de outros benfeitores que trabalham em outras localidades. Isto não significa que não nos visitamos uns aos outros.

Após o término de mais uma reunião de intercâmbio mediúnico, onde muitos irmãos haviam recebido a consolação, alguns enfermeiros informaram que havia chegado ao centro um espírita que havia desencarnado há alguns meses e que estava inconformado com sua condição pós-morte. O dirigente dos trabalhos, Sr. José de Moraes, indagou:

- Será algum caso que necessite de incorporação?

- Não ... De maneira alguma. Ele apenas exige falar com o senhor, mas não haverá necessidade da participação de médium. - respondeu o enfermeiro.

Sempre amável, José me deu um sinal para acompanhá-lo e retirou-se da sala, indo até à calçada onde estava o inconformado.

Ao ver o irmão que pedia uma entrevista com o amigo José, pude notar que se tratava de um distinto cavalheiro. Bem vestido, cabelos bem penteados, usando uma camisa branca e uma calça bege, sobraçava um exemplar de "O Livro dos Espíritos". Realmente, não me parecia tratar-se de alguém que sofresse algum tipo de perturbação pós-morte.

Nós nos aproximamos e José iniciou a conversa, dizendo:

- Seja bem-vindo, meu irmão! Sou ... Antes que o amigo terminasse, o visitante interveio:

- Sei quem é o senhor, aliás, difícil é conhecer alguém que não saiba quem é o senhor. Por isso vim falar-lhe. Creio que é a pessoa indicada para me ajudar.

Com a calma de sempre, José respondeu:

- Já que me conhece, não se faz necessário eu me apresentar. Esta é nossa irmã Benedita. E o senhor, quem é?

- O senhor não está me reconhecendo?

Há muito tempo, quando tanto eu como o senhor ainda estávamos no corpo, tivemos uma conversa. Não se lembra?

Colocando a mão no queixo, como se estivesse tentando recordar-se, depois de alguns minutos, José respondeu:

- Desculpe-me, mas não me lembro. Se me disser seu nome, talvez ajude.

- Chamo-me Osias e considero a sua não-lembrança, uma falta de consideração para comigo. Tive um papel importante no crescimento do Espiritismo em toda a região. Numa época difícil, muitas vezes ia fazer palestras a cavalo, atendia com desvelo a todos os sofredores que batiam à porta de minha casa.

José de Moraes, com toda a sua experiência, redarguiu:

- Com certeza, tudo que fez de bom está anotado e não ficará em vão; por isso o senhor não acha desnecessário comentar o Bem que fez? - Acha-se mais importante do que eu, não é?

Percebendo que o distinto cavalheiro dava sinais de desequilíbrio, José disse:

- O senhor não gostaria de adentrar a casa espírita? Já encerramos as atividades, mas poderíamos conversar com mais tranqüilidade ... - Pensei que não ia me convidar.

Entremos. O que eu tenho para reivindicar vai levar tempo.

Assim que entramos, José, com toda sinceridade que lhe é peculiar, advertiu:

- Terei imenso prazer em conversar com o senhor, mas há muito que se fazer por aqui. Não posso dispor de muito tempo, por isto, se puder ir direto ao assunto ...

- O que me traz aqui é algo muito simples: estou sendo vítima de uma grande injustiça. Após anos e anos dedicados à causa espírita, anos e anos de sacrifício em nome da caridade, ao desencarnar, me deparei com uma situação inimaginável para mim.

- E qual foi a situação? - indagou José.

- Primeiro, me disseram que eu estava doente, o que já foi um absurdo; depois, me ofereceram uma vassoura e chegaram a ventilar a idéia de que eu deveria trabalhar de faxineiro!

- O senhor tem alguma coisa contra faxineiros?

- Não se trata disso, mas é que, nem quando eu estava encarnado, eu fazia serviços domésticos! Agora, tem cabimento eu fazer, depois de morto? Sem falar da minha posição ...

José de Moraes havia notado qual era o problema daquele irmão, por isso começou a conduzir o diálogo de maneira que o espírita desencarnado fosse levado à reflexão. Para isto, indagou:

- Então, o senhor admite que sacrificou a própria esposa?

- Não foi isso que eu disse! O senhor está colocando palavras em minha boca. Além disso, como uma pessoa que tinha a minha missão, poderia se ocupar com serviços tão insignificantes? !

- Sinceramente - respondeu José -; não entendo por que essa postura. Caso o senhor não se lembre, Jesus, quando estava encarnado, sempre que possível, ajudava seu pai na carpintaria. Outros tantos considerados missionários não se esquivaram aos compromissos sociais.

- Mas a minha missão era por demais importante! Não poderia perder tempo com tarefas e questões de menor importância. Afinal, Jesus era Jesus.

- O senhor conheceu Chico Xavier?

- Evidente que sim! Qual espírita não conheceria o grande médium de Uberaba?

- Pois bem, então sabe que ele trabalhou profissionalmente até se aposentar e ainda cuidou de todos seus irmãos consangüíneos, sem falar ainda que era ele quem colocava comida dentro de casa.

- Mas, Sr. José de Moraes, o senhor não está entendendo! Eu ...

Agora foi a vez de José intervir, como se estivesse tendo uma visão do passado daquele irmão, advertiu:

- Estou entendendo, sim, meu irmão ...

O senhor falhou como esposo, faltando-lhe solidariedade com a companheira de tantos anos. Perdoe-me a sinceridade, mas está tentando responsabilizar a Doutrina Espírita pela sua inércia doméstica.

- O senhor está me ofendendo! Diz isso porque não me conhece bem. Se soubesse tudo que já fiz em favor da Doutrina, não diria isso. - E, a seu favor, o que o senhor já conseguiu fazer?

- Como assim? Não entendi! Fazendo para a Doutrina, não acabei conseqüentemente fazendo a mim mesmo?

- Creio que não, meu irmão. Quando menciona o pouco que fez, note que o senhor fala com uma certa amargura, chama de sacrifício o que muitos fazem com prazer. A prática do Bem também precisa nos fazer bem. O que importa não é a quantidade que praticamos, mas sim, o quanto de amor colocamos em cada ação no Bem.

- Mas eu fui um grande divulgador da Doutrina Espírita! Semeei a boa semente nos corações alheios ...

- E se esqueceu de preparar a terra para o plantio no seu próprio coração?

- Como pode dizer isso?! Então, não aprendemos que a maior caridade que podemos fazer ao Espiritismo é sua divulgação?

Mantendo-se tranqüilo, José esclareceu: - Você disse bem: é a maior caridade para o Espiritismo. Isso não quer dizer que seja para quem a divulga.

- Então, divulgar a Doutrina não é caridade?

- Não foi isso que disse. Sempre será caridade a divulgação dos postulados espíritas. Mas talvez esse divulgador - que sinceramente acho que é seu caso - precise divulgar de frente ao espelho os próprios erros, fazer uma espécie de propaganda das mazelas Íntimas para si mesmo e realizar a caridade a si próprio de modificar-se. Entende?

- Mas sempre fui um estudioso da Doutrina, sempre tive muita bagagem intelectual. Lembro-me que uma vez assisti a uma palestra do senhor no centro e lhe confesso: achei um horror, erros de português e um palavreado simplório demais para meu gosto.

- Será, meu irmão, que, se as frases de efeito, as frases belas e a explanação perfeita em termos de vocabulário fossem tão importantes, Jesus teria ensinado através de parábolas?

- Consideremos apenas que nossos pontos de vista são diferentes. Isto não quer dizer que o senhor esteja certo e eu errado, não é?

- Mas eu não disse que o senhor está errado. Em verdade, quem se encontra inconformado consigo mesmo é o senhor. A mim não haveria nenhum problema, caso fosse convidado a ser um faxineiro deste outro lado; aproveitaria para fazer uma faxina em minha alma.

- É que eu não acho justo! Depois de tantos anos militando na Doutrina Espírita e ser recebido deste outro lado com tanto descaso ! Isso não está de acordo com os ensinamentos dos Espíritos Superiores! Veja, está aqui na pergunta de número ...

Quando aquele irmão ia abrir "O Livro dos Espíritos", para mostrar onde estava escrito o que ele dizia, José segurou suas mãos, pediu licença, retirando o livro dele e colocando-o em cima de um banco, em seguida, disse-lhe:

- Meu irmão, há momentos em que as respostas que procuramos não estão nos livros, mas, sim, dentro de nós. Eu sei que os guias da humanidade nos disseram muitas coisas, mas, neste momento, o que é que o seu coração diz? Recue no tempo, sem máscaras, volte e lembre-se de cada passo que deu. Veja se o que diz, de fato, corresponde à realidade ou é fruto da sua ilusão.

- Mas, irmão, eu servi com desinteresse.

- Não é verdade, você serviu esperando o aplauso do mundo e as homenagens dos Espíritos Superiores ... Não minta a você mesmo. - Mas eu tinha uma missão importante.

- Sua maior missão ainda não foi cumprida. É a missão de admitir e corrigir seus próprios erros.

- Está bem, eu admito ao senhor que errei. ..

- Não é para mim que tem que admitir: é para si mesmo!

Por alguns minutos, houve um silêncio, José de Moraes aguardava para ver o efeito que suas palavras haviam causado.

Benedita Pimentel