O VASO ESCOLHIDO

''Este é para mim um vaso escolhido, para levar o meu nome diante dos gentios, e dos filhos de Israel." (Atos, 9: 15)

"Este é para mim um vaso escolhido" foram as palavras com as quais o Espírito de Jesus esboçou o papel que estava reservado a Paulo de Tarso desempenhar, no processo de revelação e implantação do Cristianismo.

"Vaso escolhido" significa médium escolhido, pois o médium é um vaso adequado à recepção da vontade divina - um receptáculo das divinas mensagens e um elo de ligação entre a Terra e o Céu.

A comprovação desta assertiva está contida no fato de haver Jesus Cristo, reiteradas vezes, surgido em Espírito aos olhos de Paulo, dando-lhe as devidas instruções a respeito do roteiro a seguir para melhor êxito no processo de divulgação da Boa Nova entre os homens. Em Atos (16:7), observamos que ao defrontar-se com a cidade de Mísia, Paulo e seus companheiros pretendiam dirigir-se para a Bitínia, mas o Espírito de Jesus, interferindo, não o permitiu. No mesmo livro (23:11), vimos também que o Espírito do Mestre, pondo-se ao seu lado, disse a Paulo: "Coragem! pois do mesmo modo que deste testemunho a meu respeito em Jerusalém, assim importa que também o faças em Roma".

Nas Epístolas de Paulo, dirigidas às várias comunidades da época, sentimos o sabor dos ensinamentos do Cristo, inspirados a seu intermediário escolhido.

O Cristianismo representou um processo revolucionário de revelação no campo religioso da época, alterando profundamente toda a ortodoxia secularmente montada pelo sacerdócio hebreu. A sua implantação no seio dos povos politeístas da época não poderia ficar na dependência apenas de alguns cristãos novos que até então não haviam conseguido se desvencilhar dos preconceitos e tradições arquitetadas no decorrer de muitos séculos de obscurantismo; por essa razão básica, Jesus teve de convocar um missionário de fibra, extremamente arrojado, a fim de que a grande tarefa encetada não viesse a sofrer o impacto de interesses de grupos ou de pessoas, interessados na manutenção do estado de coisas até então prevalecente.

Lançando as bases de uma nova Doutrina, Jesus Cristo definiu o seu rumo e a sua essência; entretanto, havia necessidade de um missionário que viesse consolidar os ensinamentos evangélicos, através de diretrizes seguras e acessíveis às várias comunidades que povoavam a Terra, desde as regiões habitadas pelos filhos de Israel, até os povos mais esclarecidos da Terra.

Podemos dizer então que João Batista, que foi o Precursor de Jesus, preparou o terreno, o Mestre Nazareno lançou as sementes em profusão, e Paulo de Tarso cuidou das insipientes plantinhas para que não viessem a ser sufocadas pelo joio do complicado sistema religioso mantido pela ortodoxia do Templo de Jerusalém que ainda empolgava muita gente.

Enquanto os apóstolos de Jesus se dedicavam de corpo e alma à tarefa de conversão dos judeus, evitando, entretanto, ultrapassar os limites acanhados das províncias judaicas, Paulo de Tarso, sob a égide espiritual de Jesus, escrevia as suas epístolas dirigidas a todas as comunidades, nas quais tinha a oportunidade de abordar problemas que lhes eram peculiares, mas sempre apresentando primeiro plano a mensagem imorredoura do Evangelho.

No caso da conversão do Centurião Cornélio, os Espíritos do Senhor tiveram de produzir retumbante manifestação espiritual, é de convencer o apóstolo Pedro a sair da sua ortodoxia e receber os emissários daquele gentio, que necessitava urgentemente travar conhecimento com os novos ensinamentos; no caso de Paulo de Tarso as coisas se passavam de modo diferente: o Converso de Damasco era quem procurava os gentios a fim de esclarecê-los e trazê-los Nova Fé.

Paulo de Tarso foi o médium escolhido que teve a incumbência de levar as palavras do Cristo a todo o mundo conhecido, e para consecução dessa tarefa, teve de tragar o cálice amargo das perseguições, das prisões, das violências e da própria morte, simbolizadas naquelas palavras dirigidas pelo Espírito de Jesus ao velho Ananias: "E eu lhe mostrarei quanto deve padecer pelo meu nome".

Paulo A. Godoy