HÁ DOZE HORAS NO DIA

"Não há doze horas no dia! Se alguém andar de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo.
Mas se andar de noite, tropeça, porque nele não há luz." (João, 11:9)

Jesus passeava no alpendre de Salomão no templo de Jerusalém, quando foi cercado pelos judeus, que lhe disseram: "Até quando terás a nossa alma suspensa? Se tu és o Cristo, dize-no-lo abertamente" .

O Mestre passou então a discorrer sobre o alcance da sua missão redentora e a sua afinidade com Deus, chegando mesmo a afirmar que era uno com o Pai. Em face dessas e de outras afirmações os judeus pretenderam apedrejá-lo ou prendê-lo, porém o Senhor conseguiu escapar de suas mãos, retirando-se para uma região situada além do Rio Jordão.

Decorrido algum tempo, foi ali procurado por emissários de "Marta e Maria, irmãs de Lázaro, os quais deram-lhe a informação de que Lázaro estava gravemente enfermo. O Mestre não se preocupou muito com a notícia, aditando: "Esta enfermidade não é para morte, mas para glória de Deus, para que o Filho do homem seja glorificado por ela".

Passaram-se mais dois dias, e o Mestre disse aos apóstolos:

"Vamos outra vez para a Judéia". Os discípulos repugnaram a idéia dizendo: "Rabi, ainda agora os judeus procuravam apedrejar-te, e torna para lá?", ao que o Senhor respondeu: "Não há doze horas no dia? Se alguém andar de dia não tropeça, porque vê a luz deste mundo; mas, se andar de noite, tropeça, porque nele não há luz".

Os judeus, face às obras realizadas por Jesus, estavam divididos, uns a seu favor e outros contra. Tanto que, conforme se depara no Capítulo 10, do Evangelho de João, "havia divisão entre os judeus por causa de sua palavra".

O Senhor havia vindo entre as "ovelhas desgarradas da casa de Israel", para que muitos dentre aqueles a quem viera apregoar a sua palavra, se dispusessem a segui-lo ou pelo menos se convertessem, e não seria o fato de ter sido ameaçado de apedrejamento que iria evitar que os seus ensinamentos continuassem a ser disseminados.

Ele havia se retirado da Judéia, mas tinha certeza plena de que a semente que ali havia sido lançada, haveria de brotar em muitos corações, germinando e produzindo frutos.

Quando procurado pelos enviados de Marta e Maria, o Mestre não se preocupou, pois sabia de antemão que a enfermidade de Lázaro não era para morte, pois aquele seu amigo apenas passaria por uma morte aparente, por um estado de catalepsia e que, regressando à Judéia, e fazendo com que Lázaro saísse do túmulo, produziria um impacto entre os judeus e o fato seria uma demonstração apoteótica da autoridade efetiva de que se achava investido da parte de Deus.

Os seus apóstolos repudiaram a idéia da volta para a Judéia face às violências ali sofridas, entretanto o Mestre não tinha as suas vistas restritas por qualquer limitação, o seu amor pelos seus irmãos era imenso e tornava-se imperioso um novo chamamento. Após isso "algumas ovelhas mais deveriam voltar ao aprisco".

Por isso disse o Senhor: "Não tem o dia doze horas?" Como querendo dizer: Não se passaram vários dias: Não serviu esse tempo para que muitas idéias fossem amadurecidas? Muitos pretenderam apedrejá-lo, mas, por outro lado, muitos guardaram as suas palavras. Alguns daqueles que desejaram matá-lo ou prendê-lo, talvez tivessem refletido melhor, mudado de opinião.

Não havia ele afirmado que, se alguém nos obrigasse a caminhar cem metros, deveríamos caminhar com ele mais cem? Nesses segundos cem metros não poderia porventura surgir o diálogo, a reflexão, o remorso, a conversão, a reforma íntima?

Os judeus haviam obrigado o Mestre a caminhar vários quilômetros, indo de Jerusalém ao além- Jordão. Era bem provável que, fazendo a caminhada de volta, percorrendo outros tantos quilômetros, talvez ele conseguisse a reforma interior de muitos.

Jesus Cristo é a luz deste mundo. Sob o reflexo dessa luz os homens jamais tropeçarão. Era imperioso tentar o trabalho de conversão dos judeus enquanto ele estava no mundo, pois, após a sua partida, o mundo entraria novamente em trevas, e os homens tornariam novamente a tropeçar, pois foi com relação a essa assertiva que João proclamou em seu Evangelho: "A luz resplandeceu nas trevas, mas as trevas não a compreenderam"; "Jesus veio para o que era seu, mas os seus não o receberam".

O Mestre deu assim patente demonstração de tolerância aos seus apóstolos. Não se deveria jamais perder a oportunidade de propiciar a alguém ser iluminado pela "luz deste mundo", enquanto ela estivesse no mundo. Após isso, as trevas do obscurantismo passariam a predominar e os homens começariam novamente a tropeçar nos encolhos das superstições, das vãs tradições e do apego às coisas deste mundo.

Por isso, disse o Evangelista João, referindo-se a Jesus: "após ter feito com que Lázaro saísse do túmulo, muitos passaram a crer nele!".

O dia tem doze horas, Jesus ficaria muito pouco tempo no mundo. Ele é a luz do mundo. O tempo deveria, pois, ser aproveitado; enquanto ele aqui estava, os homens não tropeçariam. Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida.

Agora que a sua palavra está sendo difundida no mundo através da revelação do Espírito de Verdade, do Espiritismo caminharemos sob a sua luz, evitando os tropeços e os obstáculos. Devemos, portanto, aproveitar a dádiva generosa das reencarnações terrenas, para que a nossa redenção espiritual se processe mais eficientemente e o Reinado do Espírito possa ser definitivamente implantado na face da Terra.

Paulo A. Godoy