A TORRE DE SILOÉ

"E aqueles dezoito sobre os quais caiu a Torre de Siloé e os matou, cuidais que foram
mais culpados do que todos quantos homens habitam em Jerusalém!" (Lucas 13:4)

Numa conversa com Jesus Cristo, alguns judeus discorreram sobre o fato de ter Pilatos ordenado que o sangue de alguns adoradores de deuses fosse misturado com o dos sacrifícios.

O Mestre, no entanto, disse-lhes: "Cuidais vós que esses homens galileus foram mais pecadores de que todos os galileus, pelo fato de terem padecido tais coisas? Ao que logo acrescentou:

-Eu vos digo, antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecerão" .

E a fim de ilustrar mais as suas palavras, aditou ainda: "E aqueles dezoito sobre os quais caiu a Torre de Siloé e os matou cuidais que foram mais culpados de que todos quantos homens habitam em Jerusalém?".

Sempre que sucede qualquer coisa de mal para determinada pessoa, costuma-se dizer que a mão de Deus estava sobre ela, pelo fato de ser criminosa ou perversa. Diante de um cataclisma ou um acidente, todos passam a lamentar que junto com os máus também perecem homens bons, moralizados e dotados de virtudes.

Uma passagem evangélica narrada por Mateus (26:25), contribuiu para a formação dessa crença: "vendo que o Mestre ia ser preso, o apóstolo Pedro puxou da espada e feriu a orelha do servo do sumo sacerdote. Diante desse gesto de violência o Senhor retrucou: Mete no seu lugar a tua espada; porque todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão".

Essa assertiva de Jesus, no entanto, não pode ser tomada em seu sentido absoluto, pois são incontáveis os criminosos que passaram pelo mundo, que empregaram os mais abomináveis métodos de tortura ou de morte contra os seus semelhantes, não pereceram do mesmo modo, pelo menos naquela encarnação terrena.

A lei das vidas sucessivas é a única que equaciona o problema e à luz das reencarnações passamos a compreender que mesmo os grandes missionários, se incorreram no caminho do crime, devem também saldar seus débitos para com a justiça divina, haja vista o caso de João Batista, que, ao ser decapitado resgatou o crime que havia cometido muitos séculos antes, quando, habitando o corpo do profeta Elias, ordenou a decapitação de várias centenas de sacerdotes do deus Baal.

Afirma o livro dos Atos dos Apóstolos (28:4) que Paulo de Tarso, escapando do naufrágio de um navio que o levava a Roma, chegou a uma ilha chamada Melita, onde foi mordido por uma serpente. Os nativos logo disseram: "Certamente, este homem é homicida, visto como, escapando do mar, a justiça divina não o deixou viver". Quando viram que nada sucedeu ao apóstolo, passaram a alimentar a crença de que ele era um deus, tal o conceito que tinham sobre o castigo que Deus reserva aos criminosos.

Diante da catástrofe ocorrida com a Torre de Siloé, que havia caído sobre dezoito homens, os judeus passaram a proclamar que as vítimas eram pecadores ou criminosos. Jesus Cristo, no entanto, esclareceu: "Cuidais que eles foram mais culpados do que todos quantos homens habitam Jerusalém?".

Pilatos havia ordenado o massacre de alguns galileus que faziam sacrifício de animais a seus deuses. Os judeus também passaram a crer que esses homens eram pecadores relapsos, por isso mereceram tal gênero de morte. O Mestre teve de prestar mesmo esclarecimento: "Cuidais que eles eram mais pecadores que os demais?"

Entre os homens que alimentavam essa crença, estavam muitos daqueles que, alguns dias mais tarde, diante do Pretório, pediriam a condenação de Jesus Cristo e a libertação de Barrabás. Com a montanha de iniqüidade dentro dos corações, e com o ódio brutal que alimentavam, é óbvio que eles nada ficavam a dever aos que foram atingidos pela matança ordenada por Pilatos, ou que ficaram sob os escombros da torre de Siloé. Eram também pecadores do mesmo porte, e é notório que muitos deles não desencarnaram de morte violenta naquela vida, pois, se a justiça Divina fosse submeter à morte desse gênero todos os chamados pecadores, não restaria ninguém para sucumbir de morte natural.

Aqui cumpre ressaltar que o simples fato de se habitar este planeta de expiação e de dor é indício seguro de imperfeição moral e espiritual.

Um grupo de anciãos de Israel não chegou a matar a pedradas a mulher adúltera, porque houve a intervenção de Jesus com a célebre sentença: "aquele que estiver sem pecado atire a primeira pedra". De modo algum aqueles homens eram mais inocentes do que a mulher que pretendiam lapidar. Diante das palavras sábias e ponderadas do Mestre, eles sentiram a montanha de pecados que dormitava em seus corações e deliberaram abandonar a idéia de massacrar a pobre criatura.

"Se vós não vos arrependerdes, todos de igual modo, perecereis." Arrependimento, nesse caso, equivale a resgate através de reencarnações depuradoras e expiatórias. Para o reajustamento da alma não basta o arrependimento, torna-se necessária a expiação.

O arrependimento, por si só, não é suficiente para isentar a criatura das conseqüências oriundas dos transviamentos ou dos crimes. É imperioso que o indivíduo se redima através do embates de vidas múltiplas do Espírito na carne, como conseqüência inevitável da lei de causas e efeitos.

Não poderemos jamais julgar que apenas os que desencarnam vítimas de acidentes ou submetidos a mortes violentas sejam pecadores em débito perante a Justiça Divina. Todos quantos padecem enfermidades incuráveis, cegos de nascença, crianças que nascem deformadas, aleijados de toda a sorte, surdos-mudos, mutilados ou portadores de outras enfermidades agudas, e mesmo a maior parte daqueles que nada sofrem Terra, que gozam saúde e abastança, têm contas a serem ajustadas no quadro da lei divina, através das vidas múltiplas. Muitos homens bons que perecem de modo violento, vítimas de acidentes ou de catástrofes, não são também inocentes, e simplesmente passam por uma fase de reajustamento perante a justiça do Alto.

Paulo A. Godoy