NEM OURO NEM PRATA

"E disse Pedro: Não tenho prata nem ouro; mas o que tenho isso te dou:
Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda." (Atos, 3:6)

Os apóstolos Pedro e João subiram ao Templo a fim de fazer suas orações. Ao passar pela porta chamada Formosa, depararam com um mendigo, aleijado de nascença, que lhes estendeu a mão pedindo esmola.

Aproximando-se dele, Pedro tomou a palavra e disse: Não tenho prata nem ouro; mas o que tenho isto te dou: - Em nome de Jesus Cristo Nazareno, levanta-te e anda. E, tomando-o pela mão direita, o levantou e logo os seus pés e mãos se firmaram.

Esta passagem do livro dos Atos dos Apóstolos encerra um ensinamento de suma importância, representando um alerta e um esclarecimento aos que pensam que é pelo montante da oferenda ou pelo seu valor intrínseco, que alcançarão recompensas na vida futura.

Certa vez estando Jesus Cristo assentado defronte do tesouro do Templo (gazofilácio), observava a maneira como a multidão lançava ali o dinheiro.

Veio, porém, uma pobre viúva, deitou duas pequenas moedas que valiam um quadrante.

E, chamando os seus discípulos, disse-lhes: "Em verdade, Em verdade eu vos digo que esta pobre viúva deitou mais do que todos os que deitaram na arca do tesouro; poque todos ali deitaram do que lhes sobejava mas esta, da sua pobreza, deitou tudo o que tinha, todo o seu sustento".

Deus não leva em conta o montante da oferta, mas o desprendimento e a espontaneidade com que é dada.

O apóstolo Paulo afirmou em sua I Epístola aos Coríntios: "E ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, ou toda a minha fortuna para os pobres, se não tivesse caridade, nada disso me aproveitaria. A caridade é sofredora, é benigna; a caridade não é invejosa, a caridade não trata com leviandade, não se ensoberbece, não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; não folga com a injustiça, mas sim com a verdade".

O homem que dá qualquer coisa, com vistas a uma retribuição nesta ou na vida futura, não está sendo desprendido. O que dá, aguardando retribuição de qualquer espécie, está sendo insuflado pelo espírito interesseiro e não está havendo espontaneidade na prática de sua ação, nada mais devendo aguardar na vida de além-túmulo.

Proclamou Jesus Cristo que o homem que dá uma quantia e manda tocar trombetas aos quatro ventos, anunciando o seu gesto generoso, está automaticamente recebendo os aplausos e a glorificação dos homens, nada mais devendo esperar nos plano espiritual, ou seja, na vida futura.

Os apóstolos Pedro e João, seguindo as recomendações do Mestre, não levavam ouro nem prata, e por isso não estavam em condições de dar esmolas, mas prontificaram-se a transmitir ao pedinte aquilo que possuíam: os dons espirituais que lhes pertenciam e que jamais lhes seriam tirados, e isso foi o bastante para fazer com que o paralítico se levantasse, ajudado pelas mãos de Pedro, e passasse a andar.

Muita gente não dá esmolas, afirmando: sou tão pobre, não tenho sequer para mim. No entanto, os Evangelhos afirmam que Deus dá mais apreço à intenção do que propriamente ao ato. Tem muito mais valor aos olhos do Pai uma pessoa que tem vontade de dar alguma coisa e não o faz porque não pode, do que uma que dá uma parcela pequena daquilo que possui.

Além disso, quando realmente não se tem nada para dar - pois a viúva descrita acima tinha apenas duas pequenas moedas e doou-as -, deve-se fazer o que fizeram os dois apóstolos: dar uma sustentação espiritual, uma prece, uma palavra de conforto e orientação, fazer uma visita ou mesmo a simples manifestação de solidariedade e de apoio moral e espiritual.

Paulo A. Godoy