O FUNDO DA AGULHA

"É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha,
do que entrar um rico no Reino dos Céus. (Lucas, 18:25)

É simplesmente extraordinária essa afirmação de Jesus Cristo, principalmente por usar a expressão um camelo passar pelo fundo de uma agulha.

Com o objetivo de caracterizar melhor essa esquisita comparação, têm-se levantado sobre ela as explicações mais díspares. Allan Kardec, por exemplo, explica que os judeus fabricavam e com pelo de camelo, e essas cordas levavam, também, o nome de camelo. Deste modo, as palavras de Jesus significariam era mais fácil passar uma corda feita com pelo de camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no Reino dos Céus.

Entretanto, existe outra versão, afirmando que havia, de Jerusalém, na encosta de uma montanha, uma passagem muito estreita, assemelhando-se ao fundo de uma agulha. Era uma passagem obrigatória, e não comportava senão a passagem de um camelo de cada vez. A fim de evitar o contrabando e exercer um controle sobre aquilo que, nos lombos dos camelos, entrava na cidade, as autoridades fizeram naquele local um posto de fiscalização, onde era cobrado o imposto sobre as mercadorias que, por ali, adentravam a cidade. Então, Jesus, no desenvolvimento da seu ensinamento, pretendeu dizer: É mais fácil passar um camelo (carregado de mercadorias) pelo fundo de uma agulha (sem pagar o devido imposto) do que entrar um rico no Reino dos Céus.

No entanto, esse detalhe é secundário, frente ao majestoso ensinamento ministrado por Jesus. Ele deu a entender que os maus ricos, os perdulários, egoístas e avarentos terão grandes dificuldades no além-túmulo, quando se defrontarem com os padrões exigidos pela Justiça Divina. O objetivo do Mestre não era o de condenar as riquezas, pois elas, quando bem-aplicadas, geram bem-estar social, conforto, saúde, alegria e equacionam muitos problemas da Humanidade. Entretanto, quando mal-aplicadas, geram a fome, a desolação, o desespero, a aflição e uma série infinda de males.

O ensinamento de Jesus Cristo, sobre o fundo da agulha, foi dada porque um moço muito rico, acercando-se Dele, indagou: Mestre, que devo fazer para herdar a vida eterna? Jesus prontamente respondeu: Sabes os mandamentos: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não dirás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe. O moço, com intensa alegria, retrucou: Tudo isso tenho cumprido desde a minha mocidade.

Face a essa afirmação, disse Jesus: Uma coisa ainda te falta: vai, vende tudo o que tens, distribui com os pobres, e terás um tesouro no céu; e vem e segue-me.

Essas últimas palavras do Mestre caíram como um petardo no coração do moço. Ele abaixou a cabeça e se retirou muito triste. Diante disso, Jesus falou aos apóstolos: É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no Reino dos Céus. Aqui cabe um destaque: o moço cumpria os mandamentos, também era assíduo aluno dos escribas do Templo, mas a sua fortuna material obstava a prática da parte mais importante: a caridade.

Por isso, quando o Mestre lhe recomendou que se dispusesse dos bens terrenos para herdar um tesouro nos Céus, o moço se afastou entristecido e, deixando de segui-Lo, perdeu a ortunidade ímpar de participar da mais transcendental missão desempenhada na Terra. Sua fortuna proporcionava-lhe bem-estar e gozos terrenos, ao passo que, seguir o Cristo, naquela circunstância, representava encargos, responsabilidades, cansaço, lutas, ameaças, tribulações, privações, noites maldormidas, perseguições, afrontas e, possivelmente, a morte, como ocorreu com quase todos os apóstolos.

Conseqüentemente, se, de um lado, estavam a satisfação dos gozos terrenos, a ostentação, o prestígio social e o conforto, do outro, estava uma vida repleta de vicissitudes, de imprevistos de sofrimentos. Sua escolha, portanto, pendeu para a primeira situação, deixando, assim, de conquistar uma posição de relevo na vida futura, onde desfrutaria da bem-aventurança nos tabernáculos celestiais.

Não era necessário dispor de todos os seus bens terrenos. O publicano Zaqueu, quando da visita de Jesus à sua casa, prontificou-se a distribuir aos pobres a metade da sua fortuna e restituir quatro vezes mais àqueles a quem eventualmente teria espoliado, o que, obviamente, representaria outro desfalque em sua fortuna. Isso bastou para que o Mestre caracterizasse a sua redenção espiritual: Zaqueu, hoje entrou a salvação em tua casa.

No Evangelho existe uma parábola que retrata bem as conseqüências nefastas, que aguardam os ricos perdulários e egoistas. (Lucas, 16:19-31). Nessa parábola, um pobre chamado Lázaro se assentava, diariamente, nos portões da mansão de um rico, esperando, pacientemente que os criados atirassem aos cães os restos de comida, provindos dos lautos banquetes que o rico realizava com os seus amigos. Quando alguns pedaços de carne eram atirados, Lázaro disputava com os cães a posse daquelas migalhas para saciar a sua fome.

Quando ambos ultrapassaram o limiar do túmulo, o rico foi expiar os seus desregramentos nas zonas terrificantes do umbral, pois não havia administrado sabiamente os bens terrenos que Deus lhe havia confiado transitoriamente. O Espírito de Lázaro, porém, ascendeu a regiões mais elevadas, onde, segundo o Sermão da Montanha, os bem-aventurados teriam sua fome saciada, porque na Terra somente experimentaram pobreza e agruras.

O Espírito do rico vendo, certo dia, o Espírito de Lázaro em companhia do patriarca Abraão, gritou triste e arrependido: "Pai Abraão, compadeça-se de mim, permita que Lázaro vá molhar a ponta de seu dedo na água e venha refrescar a minha língua, porque não suporto mais esta aflição." (As chamas do remorso.) Abraão respondeu: "Entre ti e ele existe um abismo, porque, enquanto na Terra experimentaste conforto e fartura, ele sofreu fome e dor."

O rico, lembrando-se dos seus irmãos que estavam ainda na Terra, suplicou: "Pai Abraão, permita que Lázaro vá avisar os meus cinco irmãos, para que eles não venham parar aqui." Abraão retrucou: "Eles têm Moisés e os profetas. Que leiam e observem suas ordenações." Mas o rico, não se dando por vencido, disse: "Se for um morto, eles ouvirão melhor! Ao que o patriarca tornou a dizer: "Se eles não ouvem os vivos, que farão os mortos?" E, virando as costas, se retiraram.

O Evangelho de Lucas (12:19-20) também nos dá conta de um rico que abarrotou os seus armazéns de alimentos, e, depois, disse: Agora, minha aíma, descansa em paz, porque tens comida para toda a vida. Mas Deus disse-lhe: Rico insensato, esta mesma noite te virão demandar a tua alma.

Naquela mesma noite o rico desencarnou e deixou todos os seus bens, porque, como diz o provérbio: "Do mundo nada se leva, a não ser as aquisições nobilitantes da alma." Com relação a isso, Jesus preceituou: Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para Deus. (Lucas, 12:21)

Paulo A. Godoy