JESUS DOS DOZE AOS TRINTA ANOS

"Quando ele completou doze anos, subiram (a Jerusalém), segundo o costume da festa." - (Lucas, 2:42)

Quem perlustrar as páginas dos Evangelhos deparar-se-á com a informação de que Jesus, embora seus pais residissem em Nazaré, na Galiléia, nasceu em Belém de Judá, na Judéia, pois por ocasião do Seu nascimento o imperador romano havia ordenado um recenseamento, e cada um tinha de se alistar em sua própria cidade.

Como José era descendente da Casa de Davi e Belém era o lugar onde nasceu aquele rei dos judeus, Maria e José se dirigiram àquela cidade, a fim de cumprir a ordem emanada do Império, que nessa época exercia domínio sobre territórios judeus. Por isso, Jesus era chamado "Filho de Davi".

Dois dos quatro evangelistas (João e Marcos) silenciam sobre a maneira como se deu o nascimento de Jesus. Mateus e Lucas, por sua vez, sustentam que Ele nasceu de uma virgem no primeiro ano de nossa era.

Nada, ou quase nada, é revelado sobre a vida de Jesus desde o Seu nascimento até os doze anos de idade. Com essa idade ele é encontrado no Templo, confabulando com os doutores da Lei, surpreendendo-os com as indagações que formulava em torno das Escrituras.

Dessa época até quando tinha trinta anos, nada mais é mencionado nos Evangelhos. Aos trinta anos, Ele deu início à sua tarefa pública, o que aconteceu quando compareceu às Bodas de Caná, onde transformou água em vinho, num gesto simbólico que revelava o caráter básico de Sua missão: transformar a religião materializada dos judeus (água) na doutrina
espiritualizante que Ele vinha revelar e que está contida nos Evangelhos (vinho).

Muitos estudiosos dos Evangelhos, mais preocupados com os fatos comuns da vida do Cristo, de que propriamente com as consequências morais e espirituais dos seus ensinos, procuram descobrir ou adivinhar o que Ele fez e onde esteve durante esses dezoito anos.

Explicações ou suposições mais diversas têm sido suscitadas sobre essas questões. Uns acreditam que Ele esteve entre os essênios, uma comunidade um tanto mística que formava uma seita judaica, fundada cerca do ano 150 antes do Cristo, no tempo dos macabeus. Eles distinguiam-se por costumes brandos e virtudes austeras. Ensinavam o amor a Deus e ao próximo, a imortalidade da alma, eram celibatários, condenavam a guerra e a escravidão e tinham bens em comum.

O Espírito iluminado Emmanuel, através da mediunidade de Francisco Cândido Xavier, esclarece, no entanto: -"O Mestre, porém, não obstante a elevada posição das escolas essênias, não necessitou da sua contribuição. Desde os seus primeiros dias na Terra, mostrou-se tal qual era, dentro da superioridade que o planeta conheceu desde os tempos mais longínquos do princípio".

Outros acenam com a possibilidade de o Mestre ter estado no Himalaia, convivendo com grandes mestres orientalistas, aprendendo suas disciplinas e mantendo-se em acentuado recolhimento, durante um largo período de iniciação.

Os adeptos da doutrina dos agêneres, por sua vez, proclamam que o Cristo teve um corpo fluídico e que, dos doze aos trinta anos, não teve necessidade de permanecer entre os homens.

No tocante à primeira hipótese, vemos a explicação lógica dada por Emmanuel, a qual já transcrevemos acima. No que se refere à segunda, cabe esclarecer que a Doutrina Cristã nada tem de orientalismo, pois ela não se prende a misticismos inconscientes e pouco compatíveis com a evolução do Espírito humano, nem à observância de vãos tradicionalismos, observados rigorosamente pelos místicos e combatidos por Jesus quando de Sua passagem pela Terra.

Ele suspirava para que os seus discípulos se libertassem dos preconceitos, das superstições e do fanatismo, através do conhecimento da verdade.

Sobre a terceira suposição têm havido muitas discussões e controvérsias. A idéia de Jesus ter-se revestido de corpo fluídico é compartilhada por um certo número de pessoas, mesmo entre os espíritas, porém, não é consagrada pela grande maioria dos estudiosos dos Evangelhos e da Doutrina Espírita.

Que demérito teria Jesus, se durante esses dezoito anos tivesse trabalhado com Seus irmãos e Seu pai nos misteres da carpintaria? Isso, pelo contrário, engrandeceria o Mestre aos olhos de todos, uma vez que Sua missão foi precipualmente dedicada aos pequeninos e humildes da Terra.

Um Espírito que desceu das esferas mais elevadas da Espiritualidade, a fim de presentear a Humanidade com uma doutrina que não era Sua, mas que havia aprendido com o Pai, não teria necessidade de cursar qualquer uma das escolas dogmatizadas da Terra, ou de conviver no seio de povos que, embora dotados de costumes austeros, alguns deles enquadrados na nova doutrina que Jesus veio trazer, estavam bastante distanciados daquilo que a Sua mensagem redentora vinha trazer à Terra.

Jesus Cristo não precisava se atrelar a princípios já superados, igrejeiros, dogmatizados, pois Ele tinha por objetivo básico lançar os alicerces de um novo mundo.

Muita gente se preocupa em demasia com detalhes irrisórios da vida de Jesus: Sua genealogia, Seu nascimento excepcional de uma virgem e outros detalhes de somenos no quadro da gigantesca missão, que veio desenvolver entre os homens. No passado longínquo, os doutores da Igreja perderam largos anos em discussões inúteis, a fim de definirem se Jesus era feio ou bonito, chegando à conclusão de que Ele era um modelo de perfeição física entre os homens.

No entanto, pouca gente se preocupa em aprender a viver os Seus ensinamentos, pois, se isso tivesse ocorrido, não existiriam mais no mundo tantas incompreensão, violência, paixões, vaidade, avareza, orgulho, egoísmo e outros tipos de imperfeições.

O fantasma tenebroso das guerras já se teria tornado ignorado na Terra, onde, pelo contrário, se torna cada vez mais amedrontador. Enfim, existiriam mais amor ao próximo, mais tolerância, mais serenidade e fraternidade.

O que interessa, realmente, nos Evangelhos são os ensinamentos vivos do Cristo, as consequências morais de Sua obra, pois, sendo Ele o Caminho, a Verdade e a Vida, somente através da assimilação dos Seus ensinamentos os homens poderão caminhar rumo ao Criador, para que, no futuro, haja um só rebanho e um só pastor.

Paulo A. Godoy